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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Reflexões 2024 - Sobre as despedidas

 Reflexões 2024


Sobre as despedidas.


Essas são reflexões minhas a respeito desse último ano, sobre minhas experiências. Mas tenho absoluta certeza de que servirá pra muita gente. Por isso, eu compartilho.

2024 foi um ano difícil pra maioria de nós. Acho que não conheço ninguém que possa dizer que foi marmelada… Pelo contrário, foi difícil ou foi terrível.

(Eu não diria que foi terrível pra mim, mas depois conto como foi que aprendi a dar salto triplo carpado com mortal na finalização.)

Pro mundo, pro Brasil, foi porrada atrás de porrada… E no nível pessoal, também. 2024 é um ano “8” universal – 2025 será um ano “9”. Assim, será um ano marcado por finalizações, despedidas, términos, mortes, etc… O que significa que 2024 foi a preparação dessas despedidas. Então, vocês devem ter encarado decepções, golpes, separações, revelações surpreendentes sobre verdades escondidas, e tantas coisas que nos obrigam a rever a vida, relações, dedicações, vínculos e outras formas de conexão que perderam o sentido. No ano “9”, as finalizações nos ajudam a fechar ciclos, sair de lugares que não nos cabem mais.

Pois 2024 foi meu ano “9” pessoal. E um monte de coisa que tava “por um fio” terminou de cair.

Então, o assunto é fechamento e despedidas.


Pra nós, que já estamos colecionando cabelos brancos, as despedidas têm um sentido dúbio: Por um lado, a leveza de abandonar coisas que já não fazem sentido, e por outro lado deixar um lugar que é confortável, já que o conhecemos há tanto tempo.

Imagine você sair de uma casa que morou a vida toda. Ou sair de um trabalho a que dedicou toda a sua vida. Ou deixar um casamento de décadas, ou, … ou…. Vocês já entenderam. Como é sair de um lugar em que você e o lugar já são parte um do outro. Quase uma amálgama. Em casos mais doentios, uma simbiose, em que a sobrevivência de um depende da vida do outro. Assim são muitos casamentos, por exemplo.

Mas nada é para sempre. E essa é uma lição que deveríamos aprender desde criança. Por quê, eu me pergunto, nós levamos a ideia de que as coisas são “para sempre”? Ok, não precisa ser tudo “descartável” mas, certamente, não é eterno. Mas foi assim que aprendemos, e assim carregamos a ideia de que relações (familiares, íntimas ou de amizade) precisam se perpetuar Ad infinitum, contando com a sua dedicação, ainda que sob tortura e sacrifício (Nem vou entrar aqui na questão de gênero – que é importantíssima – de “QUEM” é que vai se sacrificar).

O sentimento de obrigação que recai sobre nós, que tentamos fazer relações sobreviverem a todo custo, é sufocante e destrói a gente por dentro. É cáustico.

Relações são feitas de, pelo menos, duas partes envolvidas. Um par de amigos, por exemplo. Além dessas duas pessoas, tem o entorno em que se desenvolve a relação. Tem as circunstâncias sociais, políticas, econômicas, raciais, religiosas, ambientais, e por aí vai. E você achando que é só se esforçar bastante pra fazer a amizade funcionar.

E eis que a amizade estremece. Os desencontros acontecem. O laço se desfaz. Às vezes, a coisa acontece aos poucos… você praticamente vê, no cruzamento do espaço-tempo, um buraco se abrindo que consome a ponte que havia entre vocês. Às vezes, parece um raio que destrói tudo num microssegundo. No dia seguinte você olha pra aquela amizade e sobrou um buraco no peito.

E assim, com casamentos. Com relações familiares, conexões no ambiente de trabalho, com aquele espaço religioso que você frequentou por tanto tempo.

Mas também acontece com outras relações: Você e aquele esporte, aquela agremiação política, aquela ideologia, aquele passeio todo ano no mesmo lugar, aqueles objetos e bens que você passou tanto tempo apegado.

Já sentiu isso? Um medo danado de que esse elemento que está se despedindo deixe um buraco no seu peito? E você não saiba o quê colocar no lugar?

Você tem medo de abandonar? Medo de ser abandonado? Medo que o buraco seja tão grande que você nunca mais se recupere, nunca mais se sinta inteiro?

A gente não aprendeu a se despedir. Sempre ouvimos: “A morte é a única certeza da vida”. Então porquê a gente tem tanto medo de se relacionar com ela? Não a morte minha ou sua – a morte do corpo físico, mas todas as mortes que precisamos lidar diariamente. Todas as perdas. Todas as despedidas. Talvez, se tivéssemos um melhor relacionamento com a Morte, a gente saberia que ela é uma ótima metáfora pra todos os fechamentos de ciclos que permeiam a nossa vida. A Morte é tão cheia de significados! E a nossa cultura dá pra ela uma capa, uma foice, e a escuridão. O Nada.

No Tarot, a carta 13 é a Morte, e até onde me lembro, nunca vi ela aparecer pra te falar do “nada”. Ao contrário, ela vem pra te avisar: Esse ciclo chegou ao fim – abra seus olhos, porque outro ciclo já começou.

E o nosso medo das despedidas é tão grande, que a gente é capaz de ficar agarrado ao caixão da experiência que acabou, sem ver que uma oportunidade novinha está te chamando pra festa.

Então, amigos, é isso. Um ciclo está se fechando, mas não vai dar tempo de fazer um grande velório. Recolha suas certezas agonizantes, suas amizades quebradas, coloque tudo numa cestinha pra dar uma última olhada: tem algo que valha a pena preservar? Tem conserto?

Mas já vou avisando: amizade remendada, certezas coladas com Super Bonder, ou relações levadas adiante amarradas com correntes, só vão fazer o seu passo lento e seu coração, pesado.

Despeça-se do que já foi. Se precisar chorar o luto, chore… mas não arraste pedaços quebrados da sua existência passada. Aprenda a abandonar.



Que o próximo ano seja um ano de despedidas que possam abrir seu caminho pra uma vida mais leve … em direção a você mesmo.

Feliz Natal, Feliz Você Novo!!!


sábado, 27 de setembro de 2014

Pequena história da maçã

PEQUENA HISTÓRIA DA MAÇÃ
Numa tarde de fim de outono, surge alegre o Vento do Sul.
- Olá, amigos! Há quanto tempo não os via! – Brincou, fazendo farfalhar as árvores.
- Olá!
-Olá, amigo, seja bem-vindo novamente...
- E então, que novidades temos por aqui? Tenho histórias a contar!
Foi então que percebeu o semblante entristecido de seu amigo Carvalho – velho como o
tempo, há muito não se entristecia, pois aprendera que mesmo a maior dor, um dia se vai, com o
passar das noites e dos dias – e por isso se preocupou.
- Então, amigo, o que é que lhe tirou a serenidade dos olhos, depositando neles tamanha
tristeza?
- Ah, veloz amigo, poucos dias se passaram desde o fato que me fez entristecer como há muito
não ocorria... Imagine você que dali da ponte sobre o regato lançou-se para a morte o mais
gentil rapaz das redondezas. Não se sabe o porquê, desistiu desta vida ao amanhecer.
O vento parou um minuto em frente à árvore.
-Mas, como isto pode ser? Era um rapaz triste, melancólico, talvez? Tivera uma perda? Sofria
de solidão?
-Ah, meu amigo, quem poderá saber? Se era triste, solitário, ou sofria de melancolia – então não
demonstrava a ninguém –posto que, dia após dia, sua intenção era espantar a tristeza e a todos
trazer alegria... No dia-a-dia, a dureza dos afazeres era sublimada em suas canções, se alguém
adoecia, se acidentava ou entrava em disputa –lá estava o rapaz, socorrendo, distraindo,
trazendo a paz ao vilarejo –era um exemplo a toda gente, da criança ao ancião, do rico ao
indigente.
- Mas, o que ouço aqui? Algo de estranho deve ter ocorrido... Tu, que a tudo observas, nada
percebeste nos últimos tempos que o tenha abatido?
- Ao contrário, vento amigo, e é isto que me espanta! Nos últimos dias de vida nosso amigo
parecia uma criança! Corria para todo lado, atendendo um enfermo, festejando os amigos!
Trabalhava com uma alegria que há muito não se via... E devo dizer-te também, nosso
amiguinho trazia no olhar um brilho especial –aquele brilho dos amantes, aquele sorriso
cativante de quem encontrou o amor!
- Ah, o amor... Sei, posso compreender... Será que amava a pessoa errada, uma moça religiosa,
uma moça... já casada?
-Isto, não posso dizer. Realmente desconheço o objeto de tal amor. Mas tenho comigo que o
namoro já era certo. O rapaz não disfarçava o calor do sentimento. Noite e dia, dia e noite,
atravessava a floresta com seu sorriso faceiro! Sim, era o amor, o amor em seu rosto moreno!
- Oh, sábia árvore, aonde vai tanto mistério? Que amor é este, que sentimento insano pôde
acabar com a vida daquele pobre humano?
A árvore silenciou. Baixou o olhar para esconder seus pensamentos.
- Mestre das árvores, o que sabe? Sinto que teu silêncio tem muito a contar.
A árvore olhou para o amigo, suspirou longamente.
-Ah, amigo alado. Sinto que não posso guardar tanta tristeza em meu peito. Sou uma árvore
antiga, mas não perdi meus sentimentos. O tempo me tornou tolerante com os erros, mas ainda
me fere a maldade.
-O que dizes?
- Sim. Vou te contar. O rapaz desesperado surgiu sobre a ponte à primeira luz da aurora. Olhou
para baixo, murmurava algumas palavras, mas não se podia ouvir. Cantou uma canção amarga
de despedida. Estava desconsolado – no seu olhar, uma tristeza infinita. Lentamente subiu no
beiral e abriu os braços para sentir a brisa da manhã uma última vez. Olhou o horizonte distante
e se lançou no espaço. Neste momento, o Vento Norte que por aqui passava despedindo-se da
estação, tomou o rapaz em meio à queda e levantou-o por um instante, lançando-o em seguida
naquela direção. O rapaz caiu na macieira que fica ao lado do regato, que amparou sua queda
por um momento, mas logo caiu ao chão. Caiu sem um gemido sequer, mas, já sem vida, sem
pulsação. Passaram-se poucas horas e os homens da aldeia por ali chegaram à procura do
menino. Em desespero tomaram seu corpo sem vida e levaram para a cidade, para que todo o
povo fizesse sua última despedida. Desde então não faço outra coisa senão pensar o que poderia
ter tido o poder de sua vida tirar...
- Mas Carvalho ancião, falaste ainda a pouco da maldade, mas só vejo, aí, decepção.
- Ocorre meu caro amigo que a macieira que ali se encontra agiu com intenção; ao amparar a
queda do moço desesperado, fincou-lhe no peito nu um galho bem apontado. Eu ouvi o
murmúrio do vento que segurou o rapaz: “Eu amparo sua queda e tu o acolhes no ar; faça-o
descer lentamente e iremos esta vida salvar”. A macieira prontamente atendeu, e no entanto...
- Mas, então ocorreu um acidente durante o salvamento! Não se poderá dizer que em meio à
tentativa, houve um mau sentimento.
O Carvalho silenciou um instante e então murmurou:
- Sabe, tanto tempo de vida me trouxe rico tesouro: galhos forte, tronco largo, protejo animais e
plantas – todo ser vivente – mas acima de tudo, sei ler o olhar de todos, até daquele que mente.
- Entendo, meu caro, entendo tua tristeza. Mas tu sabes que não tolero ato mau, mentira e
insolência. Eu trago as boas novas da estação, trago vida, a esperança da renovação. Mas
quando vejo o erro, o egoísmo e o desrespeito – não nego minha natureza – Sou VENTO, e levo
tudo ao chão!
Com estas palavras, desceu até a macieira que, vaidosa, exibia naquela época seus lindos
frutos dourados.
- Olá amiga árvore, que novas me trazem você?
- Eu é que pergunto: Que bons ventos o trazem? – E sorriu.
- Sim, sim, estou trazendo a nova estação.
- E me deixarás despida em breve...
- É a minha parte na Criação!
Os dois se riem do gracejo.
- Então, bela árvore, testemunhaste a morte dum menino aos teus pés?
- Sim, fato triste e estranho! Nunca imaginei infelicidade que fosse deste tamanho! Ouvi o que
contou o Carvalho – e o disse com muita certeza: era um rapaz alegre, belo e trabalhador – não
se podia imaginar que carregasse tamanha tristeza...
- Então, estava ele triste?
- Não foi o que o Carvalho disse?
- Bem, mas há algo que não entendo... Tanta alegria num dia, para tristemente morrer? Não teria
ele dito algo que nos ajudasse a crer?
- Ajudaria se eu dissesse que era um tolo sonhador? Volúvel e despreocupado, irresponsável no
amor? Acompanho sua vida desde o primeiro vagido; subiu em meus galhos centenas de vezes
enquanto era um menino – por toda vida o alimentei com meus frutos dourados – mas
ultimamente andava por aí sem rumo, desarvorado – dizendo-se amando, dizendo-se
apaixonado...
- Ora, então ele estava enamorado?
- É o que dizia... mas o que pode saber do amor um ser tão jovem? Sabemos todos que o amor
não foi dado conhecer ao Homem!
- O que dizes, minha amiga? Então o moço mentia?
- Creio que sim. Passou uma vida toda a brincar nos meus galhos, correndo à minha volta,
comendo maçãs aos meus pés, levando meus frutos embora...
- E então...
- De um momento para o outro, desapareceu. Preocupei-me deveras. Pensei que estaria doente,
talvez uma febre severa... Mas, eis que um dia desses aparece de repente: Foi exatamente na
manhã que antecedeu ao acidente. Aproximou-se de mim, tal gato sorrateiro, sentou-se à minha
sombra como outrora fazia e disse com ar zombeteiro: “Querida árvore, árvore amiga, dos
frutos que adoçam a boca, da sombra que nos descansa do sol... Venho confessar a ti algo que
só tu saberás: Há na aldeia moça tão bela que a tudo faz parecer iluminado; seu sorriso encanta
mais que o mais belo gorjeio de pássaros, seu olhar brilha como se guardasse mil estrelas nos
olhos –estou apaixonado. Guarda ti o meu segredo, embora eu pense que agora todos tenham
percebido, pois frente a maior dificuldade, ainda conservo o sorriso... ”!
-Então, o moço confiou a ti um segredo? E o que mais ele contou que possa explicar tal
desfecho?
- Ora. Nada mais. Levantou-se, tomou-me algumas frutas e se foi.
- Apenas isso? Nem mais uma palavra? Nem na manhã fatídica?
- Nada mais.
O vento rodeou a árvore por um instante. Sentia que havia algo que não revelava.
- Ora, mas o que é isso? Há uma folha de papel na sua folhagem, cara amiga.
- Oh?! Será um bilhete de despedida? Será um recado para mim? Vamos, abra logo e leia...
- Eu não sei ler, amiga. Não há paradas em minha viagem e atravesso todas as nações... mas sei
quem poderá fazê-lo...
- Amigo Carvalho, onde está Mestra Coruja? Acho que temos aqui a solução do caso; em meio
às folhas da macieira encontrei um pequeno recado!
- Espere um minuto, vou já acordá-la.
E tremeu seus galhos mais altos, acordando a velha coruja que ali habitava.
- Olá, olá, porque me acordam a estas horas do dia?
- Desculpe, cara senhora, precisamos do seu socorro: temos um pequeno papel com as poucas
letras de um moço!
- Ah, deixe-me ver... Hum, hum, (pigarreou) “Meu caro pretendente, enamorado sonhador –
Disseste-me em uma canção, à noite, sob minha janela, que por mim tens amor em sua forma
mais singela e que em breve me daria a prova de tal carinho – pois mandaria o sol, as estrelas
em um cestinho! E realmente recebi pela manhã, em meio a flores estreladas, um belo fruto
dourado como o sol como seu bilhete atado: Por ti o meu amor floresce a cada manhã- ilumina
como o sol, brilha como as estrelas – ao provar este fruto poderás então entender que o que
sinto não tem apenas beleza, mas também o doce profundo e verdadeiro do fruto da macieira.
Ah, rapaz, se teus sentimentos são como este fruto, peço-te que me esqueças, então, pois nunca
vi tal ignomínia e maldade partindo de um só coração. Esqueça-me e abandone qualquer
sentimento por mim – desejo apenas que o tempo apague as lembranças que ainda guardo de ti.
- Ora, ora! – Exclamou a coruja – o que vejo aqui? Parece-me que o amor foi renegado! Este é o
bilhete de uma moça!
O Carvalho e o Vento se entreolharam e perguntaram:
- O que será que aconteceu a ela?
- O que fez o apaixonado?
Todos se viraram para olhar de onde vinha tal pergunta.
- Talvez o moço tenha levado um fruto estragado – e a macieira pôs-se a rir.
- Como podes fazer isso a um ser apaixonado? Agiste com maldade, com ciúme e despeito!
- Foi o namorado! Ora, nada fiz. Foi ele que escolheu o fruto errado!
- Tu, nada fizeste?
- Bem... –Ela sorriu de lado – achei que já era hora de dar uma basta ao abusado. Tomar minhas
frutas para si, eu aceito, mas para presentear o ser amado...
- Amargaste a fruta!
- Sim, fiz. Mas só um pouco. Queria saber se era amor verdadeiro. Viste? Não era.
- Fostes cruel e insana! Como podes querer interferir assim no caminho dos homens?
- Ora, o fruto é meu! Fiz e acabou-se. Nada há para se lamentar.
- Não te sentes arrependida?
- Nem um pouco. Não tolero a traição. Era a mim que ele devia carinho e atenção. Eu que
acompanhei sua vida inteira, o alimentei e aninhei. Agora, por uma humana qualquer, abandona
meu regaço e ainda toma os meus frutos?
- JÁ OUVI O BASTANTE.
Fez-se ouvir uma voz que não era humana nem canto de pássaro, semelhante ao
murmúrio das águas, era doce como as manhãs da primavera, porém, poderosa como uma
tempestade de verão.
Todos se calaram ao mesmo tempo: animais, flores e árvores, pássaros em pleno vôo
pousaram nos galhos em silêncio – até as águas do regato se abrandaram e corriam
mansamente.
Então o Carvalho falou:
- Salve, Mestre da Vida. É uma honra ouvir Tua Voz, pois sabemos que estás entre nós a todo
momento nos observando em silêncio.
- Sim, filho Meu. Tens razão. Saúdo a todos nesta manhã. – E continuou: - Filha Minha,
orgulho de Minha Criação... o que fizeste? Tiveste a chance de salvar a vida do rapaz e, no entanto...
- Ó Mestre – a árvore enrubesceu – sinto muito. O rapaz atirou-se de forma inconsequente e o
Vento Norte lançou seu corpo em minha copa sem avisar-me, nada pude fazer...
-Foste chamada em auxílio do rapaz, Eu sei.
- Bem, mas, foi tudo tão rápido, não pude amparar sua queda, ademais, Mestre, a ninguém foi
dado dispor de sua própria vida, de modo que quando o vi lançar-se no espaço...
-E a ti, foi dado julgar?
- Como, Senhor?
-A ti, foi dado julgar se ele merecia ou não viver?
- Bem, não.
- Quando o rapaz se lançou no espaço, o Vento Norte já estava à espera para levá-lo aos seus braços. Alí, o Vento aguardava, atendendo ao Meu chamado. Pois vos digo agora, o rapaz passou a noite em agonia sem entender o motivo de seu amor ser desprezado – passou a noite em prantos, com o bilhete em seu peito apertado. Seus pensamento percorriam todo caminho possível para dar cabo à sua vida – Sim, ele errou – não poderia fazê-lo – mas o perdoei, então, pois estava em desespero. Quando já amanhecia, perturbado e cansado, encaminhou-se para a morte no alto do penhasco. A muito custo inspirei-o a desistir de tal feito, vindo ter à ponte para realizar seu intento. Agora veja, cara filha, onde se confrontam os fatos, pois era tu a causadora do erro e a ti foi permitido resgatá-lo. Trazendo-o até sua árvore amiga, acreditei que as lembranças dos momentos felizes o fariam desistir de acabar com sua vida. E ainda que tal não ocorresse, ainda assim, se se lançasse à morte, poderíamos salvar sua vida, Eu, tu e o Vento do Norte. Vós todos sabem que não interfiro em qualquer escolha, mas faz parte do Meu
papel entregar a segunda chance, para o menino e para ti, minha pequena.
A árvore baixou o olhar envergonhada.
- Como eu poderia imaginar? Estava cega de ciúme. Uma vida toda dedicada a ele e então, o
abandono por outro alguém? E quanto a mim, ninguém se importa, não é? Ficaria abandonada à
minha própria sorte...
- Confundes teus sentimentos, minha cara, com os sentimentos humanos? Perdeste o senso? Tu sabes que esta expressão de amor é coisa dos homens – Para vós outros Eu dei o sentido
verdadeiro e sei que compreendes: a eternidade. Ao que eles chamam de amor, poderiam
chamar posse sem perda do significado. Mas, tu? Queres possuir um humano só para ti ou
queres que ele seja teu proprietário? Acredito que perdeste em algum tempo o sentimento de perenidade que há em toda a Minha Obra e que um dia, daqui a muito tempo, será igualmente compreendido pelo homem.
A partir de hoje, teu ato de maldade marcará para sempre teus frutos – Serão tingidos do
rubro sangue do rapaz, e do teu ódio, carregarão o gosto amargo. Sim, perderão o dourado do sol e o sabor adocicado, pois não é feitio de Minha Obra deixar a quem quer que seja imune da resposta de todos os seus atos.
Então o mestre silenciou e toda a floresta, lentamente, retornou aos seus afazeres.
Apenas restaram estáticos; o Carvalho, o Vento Sul e a Coruja, profundamente tocados pelo
triste fado da ciumenta árvore.
O Vento foi até a macieira procurando consolá-la: - Cara amiga, veja bem, tente aceitar
o teu destino, não te entristeças desta forma, vamos superar o desatino.
- Falas por ti e não por mim, estás em eterno movimento, podes procurar distração a qualquer
momento. Quanto a mim, sou uma desgraçada, terminarei meus dias sozinha, pois quando
provarem dos meus frutos o terrível gosto amargo, me abandonarão qual erva daninha.
... Passaram-se sete dias, então – a árvore se lamentava noite e dia.
Ao oitavo dia veio ter à sua sombra uma formosa menina, que chorando, lamentava a
sua sina.
- Amei a um pobre rapaz que hoje não está entre nós; sob esta terra seu corpo jaz. Se me
amava realmente, jamais poderei saber, me trouxe fruto amargo, pensei que ironizava o amor;
atirou-se, então desta ponte sem explicação – levou o segredo. Se isto é que é o amor, já não o
quero, tenho medo.
A triste árvore ouviu a tudo e arrependida, lançou aos seus pés um fruto maduro.
A moça assustada tomou a fruta do chão – olhou-a com curiosidade – parecia um
coração! Sem suspeitar de nada, sentindo seu aroma, experimentou-a com cuidado e a surpresa
calou-a. Era doce como o mel, macia e saborosa, lembrou vagamente o sabor da fruta que
recebera na manhã anterior ao infortúnio.
- Será que era este o fruto prometido pelo meu amado? Talvez em meio à pressa ele tenha se
enganado! Fui tola e imprudente! Antes de negar seu amor, deveria ter aceitado o presente.
E assim, foi embora, levando o fruto nas mãos.
- Ouviste, filha Minha? Eis aí o seu perdão. Presenteaste a moça com um fruto de raro sabor, saibas agora, e para sempre, é disso que é feito o Amor. Doravante teus frutos outrora dourados levarão a marca do teu gesto tresloucado – a cor rubra do sangue do jovem apaixonado – mas a polpa será tenra e doce, como o amor perdoado, porém, para que disto não te esqueças, carregará para sempre na casca, do ciúme um toque de gosto amargo.

Inês Amazilis Choueri
19 e 20/04/2004

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Nós devoramos a beleza.

Nós devoramos a beleza. Não queremos que ela se vá, que nos deixe assim, órfãos num mundo de tão pouca beleza e tanta mesquinharia.

Queremos a beleza, nem que seja em nossa boca, entre nossos dentes, descendo pelo esôfago e atingindo nosso estômago. Nós queremos digerir a beleza, para que ela faça parte de nossas células.

Acostumamos-nos ao mal. Ao feio. À negação do belo como forma de viver. Como se a beleza fosse uma espécie de gasto fútil de nossas (ou do Universo) energias. Então vivemos mal, nos comportamos mal. Fazemos o mal. E fazemos mal as pequenas coisas da vida.

Será tão difícil perceber que o mundo precisa da beleza? Que ele se move por ela e a partir dela? Exemplos banais: As flores atraindo borboletas, os pássaros exibindo beleza para atrair fêmeas, uma escultura natural que nos obriga a preservar todo um sistema.

E nós, com pensamentos de uma mesquinhez bruta, economizamos beleza. Fazemos tudo “mais ou menos”, discretinho e cinzento. Pra não gastar purpurina.

Não fosse a beleza, seríamos como máquinas frias, apenas calculando a melhor trajetória para a vida. Economizando combustível e tempo... Nada de apaixonar-se perdidamente por um ilustre desconhecido que será a pessoa mais importante que já cruzou o seu caminho, ou de apaixonar-se por uma canção (haveriam canções?), por um céu estrelado, ou extasiar-se eternamente pelo efêmero instante do amanhecer. É aniversário de uma criança que você ama, e você contabiliza dias e meses ou comemora mais um ciclo de descobertas e renascimento?

Mas ainda que a beleza cause uma irresistível atração sobre nós, insistimos em achar que o normal é cercarmo-nos da feiúra. Nos atos e nos rostos. E quando encontramos com o brilho, a luz e a beleza, corremos dela. Ou destruímos a fonte. Ou devoramos rapidamente, sem pensar. Será que é porque não nos achamos merecedores? Não acreditamos que esta beleza que está em tudo seja acessível? Será que alguém nos convenceu que nosso destino é sermos medíocres reprodutores de imagens insossas em nossas próprias vidas?

Seria esse o motivo de nossa fascinação quando vemos alguém criando a beleza na vida? Em sua própria vida, quando percebemos que é feliz, e na vida dos outros... E chamamos este alguém de... Artista?

O artista é alguém que percebeu que a beleza não deve perecer, mas permanecer. Aquele que esculpe, pinta ou faz da beleza ferramenta da efêmera arte da encenação teatral, traz a beleza do espaço etéreo da criação para a concretude da vida corpórea, que também chamamos de “real”. Como se o mundo dos pensamentos, onde tudo cabe, não fosse tão real...

Ser belo, nesse mundo, dessa forma, passa a ser uma temeridade. A mesma beleza que torna a vida mais leve e mais prazerosa, pode ser a causa da morte e destruição daquele que a carrega.

Assim como pássaros exóticos são aprisionados e vendidos pela beleza de suas plumagens, fazemos com a beleza de outrem. Caçamos. Aprisionamos. Escondemos da luz, onde possam vê-la e desfrutá-la. A história do mundo poderia ser contada a partir da luta do horror contra a beleza. E ela sempre surge, ainda que massacrada, perseguida e constrangida. Surge e brilha, como raios de sol que invadem o dia cinza e macilento.

Há uma lição a aprendermos com a beleza: a lição da liberdade. A beleza aprisionada é apenas uma relíquia. Tal como uma nota antiga, perderá seu valor e sua vocação – que é a de nos levar além. Além dessa pequenez das mentes estreitas, que acreditam na fealdade como condição de origem do ser.

Não, o ser é belo. Sempre haverá como ser belo.

A beleza concreta é ponte entre o aqui-agora e a transcendência que trazemos na alma. Quando vemos algo realmente belo e nos apropriamos da beleza que ele emana, sentimo-nos parte dela, irmãos de carne e espírito. A beleza nos eleva acima do lugar comum, do todo-dia mecânico em que vivemos, para alcançarmos as estrelas. É obrigação nossa libertarmo-nos da crença dessa vida limitada pela finitude da carne, e lembrar que somos infinitos.

E a beleza, dos atributos do mundo concreto, é a ponte para o infinito.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Meu dia, meu dia...

Tava ali pensando, porque diabos meu aníver é tão rápido? Sim, rápido mesmo... Tem gente que fica contando os dias, meses, pro aniversário chegar... e são tantos! O meu? É assim: Natal, Ano Novo, o ano começa, começam as atividades, quando eu vejo, já passou!
Aniversário em fevereiro, sujeito a chuvas, trovoadas e carnaval, é um porre! Só perde pra aniversário no Ano Novo. Ninguém vê!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Heloísa – parte 1

Gostava daquela melancolia do final do domingo; o agito da cidade fenecia sob o despontar das primeiras estrelas... se houvessem estrelas.

Mas o céu da cidade era assim: de dia – cinza claro. De noite – cinza escuro. Mas havia chovido, e as nuvens deram lugar a um céu com estrelas. A lua tímida, ainda escondia-se sob restos de nuvens.

Da sacada do apartamento incrustado no centro de São Paulo, via a cidade brilhar com suas luzes de natal, semáforos e faróis de carro. Já passava da meia-noite e o silêncio era quase total. Poças de água multiplicavam o cintilar da luzes e deixava a cidade com um aspecto limpo. No beiral da sacada, gotas de água brilhavam. Uma pluma branca, pequena, veio flutuando e equilibrou-se no beiral, colada na gota de chuva. Ficou olhando:

- Será que tem pombas por aqui? – pensou. Lembrou-se que sempre que varria ali, encontrava uma ou outra pena. – Será que tem um pombal no apartamento de cima? O zelador havia comentado que o apartamento estava fechado há quase dois anos. – Era só o que me faltava – pombas pra sujar o chão, trazer doenças...

Olhou pra cima. Viu um tecido leve e branco, esvoaçante. Prestou mais atenção e viu um par de mãozinhas delicadas entrelaçadas. Um cabelo longo e loiro esvoaçava junto com o vestido.

- Ah, que ótimo! Agora tem morador. As pombas não ficarão por muito tempo. Assim que perceberem que sua casa foi invadida, vão procurar outro canto.

Voltou-se para o apartamento, fechou as portas e foi dormir.


 

  • Bom dia! – diz o zelador, alegre. – que chuva, não?
  • Pois é... deu uma refrescada...
  • Graças a Deus. O calor tava demais.
  • É... Diga uma coisa, tem gente no apartamento de cima?
  • Ah, sim. Dona Heloisa. Moça simpática. Muito quieta, mas simpática.
  • Ah, sim... agora, acho que as pombas vão embora, não?
  • Pombas?
  • Sim, sim....

O elevador chega ao térreo. Cada um segue pra um lado.

  • Tenha um bom dia!
  • O senhor também.

Saiu indignado. "- Como assim? Esse pessoal não presta atenção a nada, mesmo. Daqui a pouco ia ter um pombal inteiro e o homem nem pra ir lá espantar. E se o pessoal começasse a ter doenças? Quem ia pagar a conta?"


 


 

Entrou no apartamento. O cheiro de produto de limpeza o fez sorrir. – Nada como uma casa limpa... Ah, que maravilha!...

  • Dona Socorro?
  • Oi, seu Estevão... to aqui. Já terminei, só tava esperando o senhor.
  • Ótimo. Desculpe a demora... o banco estava cheio... eu trouxe o pagamento da senhora.
  • Obrigada, seu Estevão. Ta tudo limpinho, viu. Deixei comida pronta pro senhor.
  • Puxa, obrigado! A senhora me adotou, mesmo, hein?
  • Ah, eu gosto de tudo certinho! Se eu vim pra trabalhar, faço tudo.

Ele vai até a sacada pra olhar o final da tarde, enquanto tira o dinheiro da carteira. Uma lufada de vento bate em seu rosto. Ele sorri.

  • Adoro esse apartamento. A vista é boa, apesar dos prédios.
  • Ai, minha nossa senhora.. de novo.
  • O que foi?
  • Essas pena... nunca vi aparecê tanta pena...
  • Que droga! Tenho certeza de que temos um pombal e o zelador não viu ainda. Olha isso!
  • Seu Estevão... num sei não... deve sê outro passarinho, olha que pena branquinha...
  • É mesmo.. não tinha notado! É bonita! Será que é algum pássaro exótico?
  • Como é?
  • Exótico, diferente.
  • Deve ser... eu tinha galinha na minha casa quando era criança... mas as pena era sujinha... não era bonita desse jeito....
  • É... é bonita mesmo. Bom, aqui ta o seu pagamento. Obrigado.
  • Brigada o senhor. Bom final de semana. Até sexta...
  • Até!

Ficou com a pluma na mão. Era pequenina e delicada. Será que a "dona" Heloísa tinha algum pássaro exótico? Uma Cacatua, talvez. Nunca via a moça... Devia ser daqueles tipos workaholic, que trabalha até a noite e só vem pra casa dormir. Ou estudava, quem sabe? Sentiu-se curioso a respeito da moça. – Será que é casada? Não lembrava se havia aliança naquela mãozinha pequena. Quase não se ouviam sons vindos de cima. Devia ser muito ocupada, mesmo. Só chega em casa pra dormir. Acorda cedo e vai pro batente... Como eu! – Riu de si mesmo. Estava sendo crítico com a moça, mas o seu estilo era idêntico. Por conta disso, seu casamento acabou no início do terceiro ano. Ana Cláudia não suportou. Nunca imaginara, em cinco anos de namoro, que a garota alegre e independente seria tão exigente. Começou a implicar com seus amigos. Isso, era previsível. Implicou com o "happy hour" da sexta-feira. Isso também. Então, começou a implicar com o seu ritmo de trabalho. Bom, tudo bem que ficar no serviço das oito da manhã às sete, oito horas da noite, não era fácil de se lidar. Mas, ela tinha que entender, estava fazendo aquilo pelo futuro dos dois. Uma tristeza tomou conta do coração dele. Doía. Será que estava certo, tudo aquilo? Trabalhava para dar conforto para Cláudia, e ela pedia pra ele não trabalhar tanto? Que devia ficar junto com a família, com o bebê recém-nascido, visitar a sogra todo domingo. Todo domingo, era demais da conta. É isso, ele não estava errado. Só não dava pra entender onde foi que a coisa gorou. Olhava as luzes, os carros, imaginava como seriam todas aquelas vidas. Será que funciona?

Um movimento leve, ao seu lado, chamou sua atenção. A pluma branca e delicada planava suave ao seu lado, descendo em câmera lenta. Abriu a mão esquerda e permitiu que ela pousasse ali. Ficou olhando pra ela, parado, sem ação. A pluma causara-lhe uma espécie de tranqüilidade, como um bálsamo para aquele momento angustioso. Quebrou a seqüência de pensamentos e o fez rir.

  • É, peninha. Você acaba de me salvar de mim mesmo.

Riu daquele pensamento. – A pena salvadora! – riu pra si, sentindo-se leve. Fechou a mão para aprisionar a pluma, mas ela escapou com uma brisa e subiu no ar, pairando a um metro acima de sua cabeça, obrigando-o a olhar para cima. E viu, novamente, o tecido leve, flutuando no ar. Sem reação, ficou observando aquela imagem quase onírica. O tecido rosa, os fios de cabelo loiro, finos, as mãozinhas apoiadas no beiral, um pézinho descalço apoiado na grade. Em sua cabeça, imagens de sonhos começaram a se intercalar com pensamentos futuros. – Vou lá falar com ela, vou agora. Não, e se ela for casada? Casada ou não, eu tenho que conhecê-la. Ela parece uma fada! Parece aquelas princesas de contos de fadas. Parece uma imagem de tela... de screensaver! Será que ela tem uma Cacatua? Ou uma arara? Não, idiota, araras são coloridas! Será que é uma Arara Albina? Bicho exótico é assim mesmo... E se eu for lá e dizer que adoro pássaros? Putz, não tem um pássaro em casa, nem empalhado. Nem quadro de pássaro. Não vai colar... vou pedir uma xícara de açúcar. Caramba, isso é óbvio demais. E ela deve ser daquelas que usa tudo Diet. Sem açúcar. Posso pedir um pouco de adoçante. Ah, deixa pra lá.


 

Ouviu um miado. A moça saiu da sacada. Ele despencou do enlevo.

domingo, 7 de novembro de 2010

A dançarina do véu vermelho



A dançarina do véu vermelho

Queria contar para a mãe. Explicar alguma coisa, para que ela não se sentisse culpada, como fazia sempre. Foi então que teve a idéia de comprar um véu vermelho. Sim, um véu vermelho explicaria tudo, ela pensava. E correu para o mercado. No mercado, uma nova revelação se fez ante seus olhos: então era por isso que sua mãe proibia sua ida ao mercado! Sequer podia mencionar a palavra, nenhuma tentativa de passar por perto era permitida – estava atônita com a quantidade de cores, brilhos, nuances que se misturavam como se flutuassem por sua própria vontade; cheiros, sons de vozes, animais, instrumentos e música, muita música! Ah, era quase desesperador, não sabia para onde olhava primeiro, tonta e feliz... Distraída, quase foi atropelada por um halwai com um tabuleiro na cabeça, cheio de golgappas. Num canto, uma mulher muito velha vendia samosas num tabuleiro enorme, o cheiro acre e quente do ghee passando por ela levou-a a infância, correndo pelos corredores até a casa da tia-avó, que cozinhava aos domingos para as crianças e homens da família... Abriu os olhos e deparou-se com uma dança sinuosa de tecidos leves e transparentes à sua frente – Cintilantes, coloridos, diáfanos, agora compreendia sua sensação: tal beleza só podia mesmo levá-la à dança de Kali, como sua mãe sempre dizia – Minha Neeraja não usa véus vermelhos. Quando casar, você ganhará o seu véu vermelho, então, minha filha morrerá e nascerá a esposa de teu marido.
Agora, lentamente, as coisas faziam sentido.

Harshad George, filho do engenheiro inglês, a seduzira desde o primeiro dia em que se encontraram, por acaso, na obra em que seu pai trabalhava. Seu pai carregava tijolos. O engenheiro dizia onde colocá-los. Harshad a olhava do alto do escritório, enquanto ela trazia a marmita com a comida e o chai para o pai, durante o trabalho.
Sabia que ele a olhava. E deixava-o perceber que ela sabia de seus olhares.
Numa tarde quente, depois de semanas daquela comunicação silenciosa, ela desceu sorrateiramente as escadas do pequenino apartamento. Um sábado ensolarado – seu pai estava compenetrado na leitura de um jornal de esportes e sua mãe dormia no quarto com as janelas escancaradas para espantar o calor.
Esgueirou-se pela viela rapidamente, foi parar na praça central sem ser vista pelos vizinhos. Estava aliviada, as velhas vizinhas certamente a mandariam de volta pra casa.
Correu pela avenida principal sem olhar para trás – agora, não podia mais voltar, estava a algumas centenas de metros de sua casa, na direção dos olhos azuis de Harshad.
A lembrança da mãe e das tias gritando com ela e surrando-a com uma vara de bambu deu-lhe mais energia para correr – Não pode ir à praça! Não vá ao mercado! Não saia de casa sem seu primo...
Mas, ela não ia até a obra, muitas vezes sozinha, para levar a droga da marmita? Isso podia? Pois foi na obra que tudo começou!


  • O que a menina quer? Pulseiras? Veja aqui, são baratas e brilham como o sol!
  • Ai, que susto, moço!
  • Desculpe, a menina estava pensativa...
  • Estou olhando, obrigada... Saiu da porta da loja e afastou-se para olhar os lenços. Azuis, verdes, dourados, laranja e amarelo, bordados e com pérolas... Era estonteante.

    Chegou ao porto. Olhou atentamente para o barco branco com uma faixa vermelha e um nome em Inglês que não compreendia. Parou assustada. - E agora? Sentiu dois braços enlaçando-a pela cintura e congelou, apavorada. Agora, como fugir?
  • Você veio... Ouviu um sussurro no ouvido e suas pernas amoleceram. Sentia que perdia a firmeza, como se fosse desmaiar. Tentou fugir do abraço, mas não tinha forças.
  • Eu... Eu... Não posso... Ficar.
  • Mas, você veio! Ele apertou-a mais contra o corpo e ela sentiu as faces em brasa.
  • Não, eu não posso! Ela empurrou-o pra longe de si, mas as pernas falharam e ela caiu no chão, tonta.
  • Nee, cuidado! Ele agarrou suas mãos e num gesto, levantou-a e abraçou-a ternamente.

    Tinha os olhos fechados, as mãos cruzadas sobre os seios para proteger-se. Ele beijou-a com delicadeza.
  • Onde estamos?
  • Estamos sozinhos, fique tranquila, ninguém vai entrar no barco. Meu pai viajou.
    Ia gritar, mas desistiu. Ninguém ouviria. E nem queria mesmo que alguém ouvisse. Pensou rapidamente em seu destino – se alguém aparecesse estaria condenada de qualquer forma. Entregou-se.
    Olhava os lenços levitando sobre sua cabeça. Os sons do mercado pareciam longínquos e a sensação do calor do corpo sobre ela permanecia ainda, como se tudo estivesse acontecendo naquele instante. Fechou os olhos para lembrar-se do rosto dele, mas a imagem fugia. A dança ainda estava em seu corpo, vibrando e fazendo-a transpirar. Sua respiração foi ficando cada vez mais ofegante e novamente, a tontura derrubou-a.
  • Moça, tudo bem?
  • Ah, sim, sim, estou cansada... É o calor... Explicava-se para as pessoas que a levantavam do chão.
  • Vá pra casa, logo vai anoitecer.
  • Sim, obrigada.
    Riu de si mesma, do rubor que sentia nas faces. Do calor que sentia entre as pernas, da dor estranha e prazerosa que trazia consigo.

    Abriu os olhos e viu os olhos azuis fitando-a enquanto dizia coisas bonitas numa língua desconhecida. Sorriu para o rapaz – Fale na minha língua, não estou entendendo!
  • Você é a menina mais linda que já vi!
  • Ah, acho que você está mentindo! Só quer me agradar.
  • Não, estou falando a verdade. E beijou-a demoradamente, foi descendo para seu pescoço, colo... Ela segurou seu rosto.
  • O que você está fazendo?
    Mas ele não respondeu. Abriu delicadamente os botões da blusa e beijou seus seios. Ela estava estática e para não demonstrar a vergonha que sentia, cobriu o rosto com as mãos. Seu coração batia rápido, sentia vertigens. - Ah, e agora? Pensou. Vou desmaiar! O que faço pra ele parar?
    • Como solta a sua saia?
    • Hã? Eu não sei!
    • Você não sabe? Ele sorriu pra ela, sem acreditar. Tirou a camisa de seda branca e jogou aos pés da cama. Pegou a mão dela, beijou seus dedos e trouxe até seu peito.
    • Sente? É meu coração.
    • Nossa! Como bate forte!
      Ele deslizou a mão dela suavemente por seu peito até a cintura e puxou-a para si, colando seus corpos nus. Abraçado a ela, desamarrou a faixa da cintura e soltou o sári verde-água com desenhos prateados. Ela sentiu o tecido fino escorregando pelas pernas rapidamente e percebeu-se completamente nua. Queria gritar, mas ele a beijava com sofreguidão, enquanto passava a mão direita por suas costas, sua nuca, e agarrava sua coxa, obrigando-a a abrir as pernas. Assustou-se e empurrou-o com força, colocando um travesseiro entre eles. Mordeu o travesseiro com força para abafar o grito. O rapaz tirou o travesseiro das mãos dela e olhou para o corpo encolhido e arrepiado. Puxou-a delicadamente para si e abraçou-a.
  • Não tenha medo de mim, não vou te machucar.

    Neeraja compreendeu o significado da dança de Kali, envolta em fogo. E compreendeu porque sua mãe não queria que ela fosse ao mercado, e que usasse o sari vermelho.
    Seu corpo estava entregue à vida, ao prazer, aos olhos azuis do menino inglês, à Kali, com sua espada flamejante que matava e trazia de volta à vida.
    Em sua cabeça, sua mãe gritava e vociferava contra os impulsos da carne, dos jovens estrangeiros que levavam as meninas de família à perdição, contra as danças de sáris vermelhos cheios de pecados e luxúria. Neeraja sentia sua carne tremer, doer de prazer enquanto rodeava o corpo de carne branca com suas pernas morenas. Dançavam juntos, agora, e as cores brilhavam e vibravam em sua mente, afastando a mãe que gritava e chorava. As cores fugiam, voltavam, giravam numa dança frenética, ouro, prata, contas coloridas e cintilantes bailavam ao som de um furacão enlouquecido, ela gemia e sussurrava palavras entrecortadas com a respiração ofegante, a dança era cada vez mais rápida, os olhos azuis semicerrados, a boca vermelha colada na sua, o beijo infinito, as cores velozes, os sons ensurdecedores das cítaras de mil dançarinos em sua cabeça, cantando, dançando, e Kali, entre eles, ria seu riso macabro e lascivo, era vida e morte, era o prazer da vida e a dor da carne, a canção dos Deuses era estridente e ela cantava em sua alma com cada um deles.
    Gritou de dor e cravou suas unhas na pele branca, quando os corpos tremeram numa convulsão, unidos até a alma. Seu grito ecoou e ela acreditou que todo o oceano testemunhara aquela transformação de seu corpo em luz – os olhos fechados viam as estrelas transformarem-se em fogos aos pés de Kali, que dançava freneticamente em seu ventre, correndo por sua coluna, descendo por suas pernas até tremer em seus pés.
    Soltou-se como quem desmaia e só então sentiu o peso do corpo relaxado sobre o seu. Kali ainda dançava dentro de seu corpo, ria em seus ouvidos, cantava a canção da morte.

    Neeraja olhava os sáris que agora já não flutuavam suavemente, mas ricocheteavam com violência contra as paredes. Pessoas corriam para segurar tecidos que voavam na ventania, sem compreender a súbita mudança do tempo. Ela olhou para cima e viu o céu azul ir cobrindo-se de negro. Um vendaval anunciava tempestade e ela teria que correr.
    - Senhor, senhor... Quanto é o véu vermelho?
    - Qual, mocinha?
    - Aquele, aquele. – Apontava um véu rubro, com desenhos dourados como chamas em toda a volta.
    - Ah, esse é caro. Não quer um mais barato? Veja este... – E mostrou um tecido rosado, com pequenos bordados verdes.
    - Não! Eu quero aquele. – Disse, resolvida a levar a peça desejada. Dizendo isso, tirou todas as pulseiras dos braços e entregou para o comerciante.
    - Está bem.

    Correu até a beira do rio com o véu sobre a cabeça e parou para olhar o pôr-do-sol de cores fortes. Viu sua mãe do outro lado da praça, vindo em sua direção. Não haveria tempo de explicar. Se voltasse para casa, encontraria Kali ou mentiria. Não havia escolha.
    Sorriu ao pensar em Kali.
    - Agora eu entendi, Kali, porque minha mãe disse que eu só teria um véu vermelho quando morresse. Agora entendi porque você dança a vida e a morte. Eu queria contar pra minha mãe, mas ela não vai compreender. Mas eu entendi. Diga a ela que eu não poderia voltar, pois A conheço e Você me conhece. Agora você dança dentro de mim.
    Olhou novamente para trás. Sua mãe vinha em sua direção e parecia furiosa.
    Amarrou o anel antigo na ponta do véu vermelho. A ventania levantava o véu acima de sua cabeça. Olhou para o rio. Soltou o véu. Saltou.


    Chai - Chá
    Ghee – Manteiga clarificada, usada para cozinhar.
    Golgappas – Guloseima popular, comprada em barracas de doces.
    Halwai – Fabricante e vendedor de doces e guloseimas
    Samosas – Espécie de pastel hindu, recheado de vegetais condimentados e frito em ghee.
  • imagem de Kali :/veerakali.blogspot.com/

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Número um.

Um conto para o começo. Melhor que isso: Um começo para um conto...

... "Abrandava sua ira com pequeninas maldades. Aqui, ali... Sem chamar a atenção de ninguém.
Apenas o gosto de sentir uma única pessoa sofrer. Uma lágrima amarga e silenciosa em meio ao rir dos demais. Um susto. Um trauma pra toda vida.
Sabia encontrar, em cada pessoa, aquilo que a faria sofrer mais do que tudo. Guardava a informação para o dia.
Sem chamar a atenção. Até com gestos compassivos e palavras de compaixão.
Então, exibia sem sutileza a fragilidade, a falha alheia.
Contou pra uma pequena que seu pai não morrera. Havia ido embora porque não queria uma filha.
A menina fazia cinco anos.
- Desculpe, achei que ela já sabia..."