Páginas

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Nós devoramos a beleza.

Nós devoramos a beleza. Não queremos que ela se vá, que nos deixe assim, órfãos num mundo de tão pouca beleza e tanta mesquinharia.

Queremos a beleza, nem que seja em nossa boca, entre nossos dentes, descendo pelo esôfago e atingindo nosso estômago. Nós queremos digerir a beleza, para que ela faça parte de nossas células.

Acostumamos-nos ao mal. Ao feio. À negação do belo como forma de viver. Como se a beleza fosse uma espécie de gasto fútil de nossas (ou do Universo) energias. Então vivemos mal, nos comportamos mal. Fazemos o mal. E fazemos mal as pequenas coisas da vida.

Será tão difícil perceber que o mundo precisa da beleza? Que ele se move por ela e a partir dela? Exemplos banais: As flores atraindo borboletas, os pássaros exibindo beleza para atrair fêmeas, uma escultura natural que nos obriga a preservar todo um sistema.

E nós, com pensamentos de uma mesquinhez bruta, economizamos beleza. Fazemos tudo “mais ou menos”, discretinho e cinzento. Pra não gastar purpurina.

Não fosse a beleza, seríamos como máquinas frias, apenas calculando a melhor trajetória para a vida. Economizando combustível e tempo... Nada de apaixonar-se perdidamente por um ilustre desconhecido que será a pessoa mais importante que já cruzou o seu caminho, ou de apaixonar-se por uma canção (haveriam canções?), por um céu estrelado, ou extasiar-se eternamente pelo efêmero instante do amanhecer. É aniversário de uma criança que você ama, e você contabiliza dias e meses ou comemora mais um ciclo de descobertas e renascimento?

Mas ainda que a beleza cause uma irresistível atração sobre nós, insistimos em achar que o normal é cercarmo-nos da feiúra. Nos atos e nos rostos. E quando encontramos com o brilho, a luz e a beleza, corremos dela. Ou destruímos a fonte. Ou devoramos rapidamente, sem pensar. Será que é porque não nos achamos merecedores? Não acreditamos que esta beleza que está em tudo seja acessível? Será que alguém nos convenceu que nosso destino é sermos medíocres reprodutores de imagens insossas em nossas próprias vidas?

Seria esse o motivo de nossa fascinação quando vemos alguém criando a beleza na vida? Em sua própria vida, quando percebemos que é feliz, e na vida dos outros... E chamamos este alguém de... Artista?

O artista é alguém que percebeu que a beleza não deve perecer, mas permanecer. Aquele que esculpe, pinta ou faz da beleza ferramenta da efêmera arte da encenação teatral, traz a beleza do espaço etéreo da criação para a concretude da vida corpórea, que também chamamos de “real”. Como se o mundo dos pensamentos, onde tudo cabe, não fosse tão real...

Ser belo, nesse mundo, dessa forma, passa a ser uma temeridade. A mesma beleza que torna a vida mais leve e mais prazerosa, pode ser a causa da morte e destruição daquele que a carrega.

Assim como pássaros exóticos são aprisionados e vendidos pela beleza de suas plumagens, fazemos com a beleza de outrem. Caçamos. Aprisionamos. Escondemos da luz, onde possam vê-la e desfrutá-la. A história do mundo poderia ser contada a partir da luta do horror contra a beleza. E ela sempre surge, ainda que massacrada, perseguida e constrangida. Surge e brilha, como raios de sol que invadem o dia cinza e macilento.

Há uma lição a aprendermos com a beleza: a lição da liberdade. A beleza aprisionada é apenas uma relíquia. Tal como uma nota antiga, perderá seu valor e sua vocação – que é a de nos levar além. Além dessa pequenez das mentes estreitas, que acreditam na fealdade como condição de origem do ser.

Não, o ser é belo. Sempre haverá como ser belo.

A beleza concreta é ponte entre o aqui-agora e a transcendência que trazemos na alma. Quando vemos algo realmente belo e nos apropriamos da beleza que ele emana, sentimo-nos parte dela, irmãos de carne e espírito. A beleza nos eleva acima do lugar comum, do todo-dia mecânico em que vivemos, para alcançarmos as estrelas. É obrigação nossa libertarmo-nos da crença dessa vida limitada pela finitude da carne, e lembrar que somos infinitos.

E a beleza, dos atributos do mundo concreto, é a ponte para o infinito.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Meu dia, meu dia...

Tava ali pensando, porque diabos meu aníver é tão rápido? Sim, rápido mesmo... Tem gente que fica contando os dias, meses, pro aniversário chegar... e são tantos! O meu? É assim: Natal, Ano Novo, o ano começa, começam as atividades, quando eu vejo, já passou!
Aniversário em fevereiro, sujeito a chuvas, trovoadas e carnaval, é um porre! Só perde pra aniversário no Ano Novo. Ninguém vê!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Heloísa – parte 1

Gostava daquela melancolia do final do domingo; o agito da cidade fenecia sob o despontar das primeiras estrelas... se houvessem estrelas.

Mas o céu da cidade era assim: de dia – cinza claro. De noite – cinza escuro. Mas havia chovido, e as nuvens deram lugar a um céu com estrelas. A lua tímida, ainda escondia-se sob restos de nuvens.

Da sacada do apartamento incrustado no centro de São Paulo, via a cidade brilhar com suas luzes de natal, semáforos e faróis de carro. Já passava da meia-noite e o silêncio era quase total. Poças de água multiplicavam o cintilar da luzes e deixava a cidade com um aspecto limpo. No beiral da sacada, gotas de água brilhavam. Uma pluma branca, pequena, veio flutuando e equilibrou-se no beiral, colada na gota de chuva. Ficou olhando:

- Será que tem pombas por aqui? – pensou. Lembrou-se que sempre que varria ali, encontrava uma ou outra pena. – Será que tem um pombal no apartamento de cima? O zelador havia comentado que o apartamento estava fechado há quase dois anos. – Era só o que me faltava – pombas pra sujar o chão, trazer doenças...

Olhou pra cima. Viu um tecido leve e branco, esvoaçante. Prestou mais atenção e viu um par de mãozinhas delicadas entrelaçadas. Um cabelo longo e loiro esvoaçava junto com o vestido.

- Ah, que ótimo! Agora tem morador. As pombas não ficarão por muito tempo. Assim que perceberem que sua casa foi invadida, vão procurar outro canto.

Voltou-se para o apartamento, fechou as portas e foi dormir.


 

  • Bom dia! – diz o zelador, alegre. – que chuva, não?
  • Pois é... deu uma refrescada...
  • Graças a Deus. O calor tava demais.
  • É... Diga uma coisa, tem gente no apartamento de cima?
  • Ah, sim. Dona Heloisa. Moça simpática. Muito quieta, mas simpática.
  • Ah, sim... agora, acho que as pombas vão embora, não?
  • Pombas?
  • Sim, sim....

O elevador chega ao térreo. Cada um segue pra um lado.

  • Tenha um bom dia!
  • O senhor também.

Saiu indignado. "- Como assim? Esse pessoal não presta atenção a nada, mesmo. Daqui a pouco ia ter um pombal inteiro e o homem nem pra ir lá espantar. E se o pessoal começasse a ter doenças? Quem ia pagar a conta?"


 


 

Entrou no apartamento. O cheiro de produto de limpeza o fez sorrir. – Nada como uma casa limpa... Ah, que maravilha!...

  • Dona Socorro?
  • Oi, seu Estevão... to aqui. Já terminei, só tava esperando o senhor.
  • Ótimo. Desculpe a demora... o banco estava cheio... eu trouxe o pagamento da senhora.
  • Obrigada, seu Estevão. Ta tudo limpinho, viu. Deixei comida pronta pro senhor.
  • Puxa, obrigado! A senhora me adotou, mesmo, hein?
  • Ah, eu gosto de tudo certinho! Se eu vim pra trabalhar, faço tudo.

Ele vai até a sacada pra olhar o final da tarde, enquanto tira o dinheiro da carteira. Uma lufada de vento bate em seu rosto. Ele sorri.

  • Adoro esse apartamento. A vista é boa, apesar dos prédios.
  • Ai, minha nossa senhora.. de novo.
  • O que foi?
  • Essas pena... nunca vi aparecê tanta pena...
  • Que droga! Tenho certeza de que temos um pombal e o zelador não viu ainda. Olha isso!
  • Seu Estevão... num sei não... deve sê outro passarinho, olha que pena branquinha...
  • É mesmo.. não tinha notado! É bonita! Será que é algum pássaro exótico?
  • Como é?
  • Exótico, diferente.
  • Deve ser... eu tinha galinha na minha casa quando era criança... mas as pena era sujinha... não era bonita desse jeito....
  • É... é bonita mesmo. Bom, aqui ta o seu pagamento. Obrigado.
  • Brigada o senhor. Bom final de semana. Até sexta...
  • Até!

Ficou com a pluma na mão. Era pequenina e delicada. Será que a "dona" Heloísa tinha algum pássaro exótico? Uma Cacatua, talvez. Nunca via a moça... Devia ser daqueles tipos workaholic, que trabalha até a noite e só vem pra casa dormir. Ou estudava, quem sabe? Sentiu-se curioso a respeito da moça. – Será que é casada? Não lembrava se havia aliança naquela mãozinha pequena. Quase não se ouviam sons vindos de cima. Devia ser muito ocupada, mesmo. Só chega em casa pra dormir. Acorda cedo e vai pro batente... Como eu! – Riu de si mesmo. Estava sendo crítico com a moça, mas o seu estilo era idêntico. Por conta disso, seu casamento acabou no início do terceiro ano. Ana Cláudia não suportou. Nunca imaginara, em cinco anos de namoro, que a garota alegre e independente seria tão exigente. Começou a implicar com seus amigos. Isso, era previsível. Implicou com o "happy hour" da sexta-feira. Isso também. Então, começou a implicar com o seu ritmo de trabalho. Bom, tudo bem que ficar no serviço das oito da manhã às sete, oito horas da noite, não era fácil de se lidar. Mas, ela tinha que entender, estava fazendo aquilo pelo futuro dos dois. Uma tristeza tomou conta do coração dele. Doía. Será que estava certo, tudo aquilo? Trabalhava para dar conforto para Cláudia, e ela pedia pra ele não trabalhar tanto? Que devia ficar junto com a família, com o bebê recém-nascido, visitar a sogra todo domingo. Todo domingo, era demais da conta. É isso, ele não estava errado. Só não dava pra entender onde foi que a coisa gorou. Olhava as luzes, os carros, imaginava como seriam todas aquelas vidas. Será que funciona?

Um movimento leve, ao seu lado, chamou sua atenção. A pluma branca e delicada planava suave ao seu lado, descendo em câmera lenta. Abriu a mão esquerda e permitiu que ela pousasse ali. Ficou olhando pra ela, parado, sem ação. A pluma causara-lhe uma espécie de tranqüilidade, como um bálsamo para aquele momento angustioso. Quebrou a seqüência de pensamentos e o fez rir.

  • É, peninha. Você acaba de me salvar de mim mesmo.

Riu daquele pensamento. – A pena salvadora! – riu pra si, sentindo-se leve. Fechou a mão para aprisionar a pluma, mas ela escapou com uma brisa e subiu no ar, pairando a um metro acima de sua cabeça, obrigando-o a olhar para cima. E viu, novamente, o tecido leve, flutuando no ar. Sem reação, ficou observando aquela imagem quase onírica. O tecido rosa, os fios de cabelo loiro, finos, as mãozinhas apoiadas no beiral, um pézinho descalço apoiado na grade. Em sua cabeça, imagens de sonhos começaram a se intercalar com pensamentos futuros. – Vou lá falar com ela, vou agora. Não, e se ela for casada? Casada ou não, eu tenho que conhecê-la. Ela parece uma fada! Parece aquelas princesas de contos de fadas. Parece uma imagem de tela... de screensaver! Será que ela tem uma Cacatua? Ou uma arara? Não, idiota, araras são coloridas! Será que é uma Arara Albina? Bicho exótico é assim mesmo... E se eu for lá e dizer que adoro pássaros? Putz, não tem um pássaro em casa, nem empalhado. Nem quadro de pássaro. Não vai colar... vou pedir uma xícara de açúcar. Caramba, isso é óbvio demais. E ela deve ser daquelas que usa tudo Diet. Sem açúcar. Posso pedir um pouco de adoçante. Ah, deixa pra lá.


 

Ouviu um miado. A moça saiu da sacada. Ele despencou do enlevo.