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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Heloísa – parte 1

Gostava daquela melancolia do final do domingo; o agito da cidade fenecia sob o despontar das primeiras estrelas... se houvessem estrelas.

Mas o céu da cidade era assim: de dia – cinza claro. De noite – cinza escuro. Mas havia chovido, e as nuvens deram lugar a um céu com estrelas. A lua tímida, ainda escondia-se sob restos de nuvens.

Da sacada do apartamento incrustado no centro de São Paulo, via a cidade brilhar com suas luzes de natal, semáforos e faróis de carro. Já passava da meia-noite e o silêncio era quase total. Poças de água multiplicavam o cintilar da luzes e deixava a cidade com um aspecto limpo. No beiral da sacada, gotas de água brilhavam. Uma pluma branca, pequena, veio flutuando e equilibrou-se no beiral, colada na gota de chuva. Ficou olhando:

- Será que tem pombas por aqui? – pensou. Lembrou-se que sempre que varria ali, encontrava uma ou outra pena. – Será que tem um pombal no apartamento de cima? O zelador havia comentado que o apartamento estava fechado há quase dois anos. – Era só o que me faltava – pombas pra sujar o chão, trazer doenças...

Olhou pra cima. Viu um tecido leve e branco, esvoaçante. Prestou mais atenção e viu um par de mãozinhas delicadas entrelaçadas. Um cabelo longo e loiro esvoaçava junto com o vestido.

- Ah, que ótimo! Agora tem morador. As pombas não ficarão por muito tempo. Assim que perceberem que sua casa foi invadida, vão procurar outro canto.

Voltou-se para o apartamento, fechou as portas e foi dormir.


 

  • Bom dia! – diz o zelador, alegre. – que chuva, não?
  • Pois é... deu uma refrescada...
  • Graças a Deus. O calor tava demais.
  • É... Diga uma coisa, tem gente no apartamento de cima?
  • Ah, sim. Dona Heloisa. Moça simpática. Muito quieta, mas simpática.
  • Ah, sim... agora, acho que as pombas vão embora, não?
  • Pombas?
  • Sim, sim....

O elevador chega ao térreo. Cada um segue pra um lado.

  • Tenha um bom dia!
  • O senhor também.

Saiu indignado. "- Como assim? Esse pessoal não presta atenção a nada, mesmo. Daqui a pouco ia ter um pombal inteiro e o homem nem pra ir lá espantar. E se o pessoal começasse a ter doenças? Quem ia pagar a conta?"


 


 

Entrou no apartamento. O cheiro de produto de limpeza o fez sorrir. – Nada como uma casa limpa... Ah, que maravilha!...

  • Dona Socorro?
  • Oi, seu Estevão... to aqui. Já terminei, só tava esperando o senhor.
  • Ótimo. Desculpe a demora... o banco estava cheio... eu trouxe o pagamento da senhora.
  • Obrigada, seu Estevão. Ta tudo limpinho, viu. Deixei comida pronta pro senhor.
  • Puxa, obrigado! A senhora me adotou, mesmo, hein?
  • Ah, eu gosto de tudo certinho! Se eu vim pra trabalhar, faço tudo.

Ele vai até a sacada pra olhar o final da tarde, enquanto tira o dinheiro da carteira. Uma lufada de vento bate em seu rosto. Ele sorri.

  • Adoro esse apartamento. A vista é boa, apesar dos prédios.
  • Ai, minha nossa senhora.. de novo.
  • O que foi?
  • Essas pena... nunca vi aparecê tanta pena...
  • Que droga! Tenho certeza de que temos um pombal e o zelador não viu ainda. Olha isso!
  • Seu Estevão... num sei não... deve sê outro passarinho, olha que pena branquinha...
  • É mesmo.. não tinha notado! É bonita! Será que é algum pássaro exótico?
  • Como é?
  • Exótico, diferente.
  • Deve ser... eu tinha galinha na minha casa quando era criança... mas as pena era sujinha... não era bonita desse jeito....
  • É... é bonita mesmo. Bom, aqui ta o seu pagamento. Obrigado.
  • Brigada o senhor. Bom final de semana. Até sexta...
  • Até!

Ficou com a pluma na mão. Era pequenina e delicada. Será que a "dona" Heloísa tinha algum pássaro exótico? Uma Cacatua, talvez. Nunca via a moça... Devia ser daqueles tipos workaholic, que trabalha até a noite e só vem pra casa dormir. Ou estudava, quem sabe? Sentiu-se curioso a respeito da moça. – Será que é casada? Não lembrava se havia aliança naquela mãozinha pequena. Quase não se ouviam sons vindos de cima. Devia ser muito ocupada, mesmo. Só chega em casa pra dormir. Acorda cedo e vai pro batente... Como eu! – Riu de si mesmo. Estava sendo crítico com a moça, mas o seu estilo era idêntico. Por conta disso, seu casamento acabou no início do terceiro ano. Ana Cláudia não suportou. Nunca imaginara, em cinco anos de namoro, que a garota alegre e independente seria tão exigente. Começou a implicar com seus amigos. Isso, era previsível. Implicou com o "happy hour" da sexta-feira. Isso também. Então, começou a implicar com o seu ritmo de trabalho. Bom, tudo bem que ficar no serviço das oito da manhã às sete, oito horas da noite, não era fácil de se lidar. Mas, ela tinha que entender, estava fazendo aquilo pelo futuro dos dois. Uma tristeza tomou conta do coração dele. Doía. Será que estava certo, tudo aquilo? Trabalhava para dar conforto para Cláudia, e ela pedia pra ele não trabalhar tanto? Que devia ficar junto com a família, com o bebê recém-nascido, visitar a sogra todo domingo. Todo domingo, era demais da conta. É isso, ele não estava errado. Só não dava pra entender onde foi que a coisa gorou. Olhava as luzes, os carros, imaginava como seriam todas aquelas vidas. Será que funciona?

Um movimento leve, ao seu lado, chamou sua atenção. A pluma branca e delicada planava suave ao seu lado, descendo em câmera lenta. Abriu a mão esquerda e permitiu que ela pousasse ali. Ficou olhando pra ela, parado, sem ação. A pluma causara-lhe uma espécie de tranqüilidade, como um bálsamo para aquele momento angustioso. Quebrou a seqüência de pensamentos e o fez rir.

  • É, peninha. Você acaba de me salvar de mim mesmo.

Riu daquele pensamento. – A pena salvadora! – riu pra si, sentindo-se leve. Fechou a mão para aprisionar a pluma, mas ela escapou com uma brisa e subiu no ar, pairando a um metro acima de sua cabeça, obrigando-o a olhar para cima. E viu, novamente, o tecido leve, flutuando no ar. Sem reação, ficou observando aquela imagem quase onírica. O tecido rosa, os fios de cabelo loiro, finos, as mãozinhas apoiadas no beiral, um pézinho descalço apoiado na grade. Em sua cabeça, imagens de sonhos começaram a se intercalar com pensamentos futuros. – Vou lá falar com ela, vou agora. Não, e se ela for casada? Casada ou não, eu tenho que conhecê-la. Ela parece uma fada! Parece aquelas princesas de contos de fadas. Parece uma imagem de tela... de screensaver! Será que ela tem uma Cacatua? Ou uma arara? Não, idiota, araras são coloridas! Será que é uma Arara Albina? Bicho exótico é assim mesmo... E se eu for lá e dizer que adoro pássaros? Putz, não tem um pássaro em casa, nem empalhado. Nem quadro de pássaro. Não vai colar... vou pedir uma xícara de açúcar. Caramba, isso é óbvio demais. E ela deve ser daquelas que usa tudo Diet. Sem açúcar. Posso pedir um pouco de adoçante. Ah, deixa pra lá.


 

Ouviu um miado. A moça saiu da sacada. Ele despencou do enlevo.