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sábado, 27 de setembro de 2014

Pequena história da maçã

PEQUENA HISTÓRIA DA MAÇÃ
Numa tarde de fim de outono, surge alegre o Vento do Sul.
- Olá, amigos! Há quanto tempo não os via! – Brincou, fazendo farfalhar as árvores.
- Olá!
-Olá, amigo, seja bem-vindo novamente...
- E então, que novidades temos por aqui? Tenho histórias a contar!
Foi então que percebeu o semblante entristecido de seu amigo Carvalho – velho como o
tempo, há muito não se entristecia, pois aprendera que mesmo a maior dor, um dia se vai, com o
passar das noites e dos dias – e por isso se preocupou.
- Então, amigo, o que é que lhe tirou a serenidade dos olhos, depositando neles tamanha
tristeza?
- Ah, veloz amigo, poucos dias se passaram desde o fato que me fez entristecer como há muito
não ocorria... Imagine você que dali da ponte sobre o regato lançou-se para a morte o mais
gentil rapaz das redondezas. Não se sabe o porquê, desistiu desta vida ao amanhecer.
O vento parou um minuto em frente à árvore.
-Mas, como isto pode ser? Era um rapaz triste, melancólico, talvez? Tivera uma perda? Sofria
de solidão?
-Ah, meu amigo, quem poderá saber? Se era triste, solitário, ou sofria de melancolia – então não
demonstrava a ninguém –posto que, dia após dia, sua intenção era espantar a tristeza e a todos
trazer alegria... No dia-a-dia, a dureza dos afazeres era sublimada em suas canções, se alguém
adoecia, se acidentava ou entrava em disputa –lá estava o rapaz, socorrendo, distraindo,
trazendo a paz ao vilarejo –era um exemplo a toda gente, da criança ao ancião, do rico ao
indigente.
- Mas, o que ouço aqui? Algo de estranho deve ter ocorrido... Tu, que a tudo observas, nada
percebeste nos últimos tempos que o tenha abatido?
- Ao contrário, vento amigo, e é isto que me espanta! Nos últimos dias de vida nosso amigo
parecia uma criança! Corria para todo lado, atendendo um enfermo, festejando os amigos!
Trabalhava com uma alegria que há muito não se via... E devo dizer-te também, nosso
amiguinho trazia no olhar um brilho especial –aquele brilho dos amantes, aquele sorriso
cativante de quem encontrou o amor!
- Ah, o amor... Sei, posso compreender... Será que amava a pessoa errada, uma moça religiosa,
uma moça... já casada?
-Isto, não posso dizer. Realmente desconheço o objeto de tal amor. Mas tenho comigo que o
namoro já era certo. O rapaz não disfarçava o calor do sentimento. Noite e dia, dia e noite,
atravessava a floresta com seu sorriso faceiro! Sim, era o amor, o amor em seu rosto moreno!
- Oh, sábia árvore, aonde vai tanto mistério? Que amor é este, que sentimento insano pôde
acabar com a vida daquele pobre humano?
A árvore silenciou. Baixou o olhar para esconder seus pensamentos.
- Mestre das árvores, o que sabe? Sinto que teu silêncio tem muito a contar.
A árvore olhou para o amigo, suspirou longamente.
-Ah, amigo alado. Sinto que não posso guardar tanta tristeza em meu peito. Sou uma árvore
antiga, mas não perdi meus sentimentos. O tempo me tornou tolerante com os erros, mas ainda
me fere a maldade.
-O que dizes?
- Sim. Vou te contar. O rapaz desesperado surgiu sobre a ponte à primeira luz da aurora. Olhou
para baixo, murmurava algumas palavras, mas não se podia ouvir. Cantou uma canção amarga
de despedida. Estava desconsolado – no seu olhar, uma tristeza infinita. Lentamente subiu no
beiral e abriu os braços para sentir a brisa da manhã uma última vez. Olhou o horizonte distante
e se lançou no espaço. Neste momento, o Vento Norte que por aqui passava despedindo-se da
estação, tomou o rapaz em meio à queda e levantou-o por um instante, lançando-o em seguida
naquela direção. O rapaz caiu na macieira que fica ao lado do regato, que amparou sua queda
por um momento, mas logo caiu ao chão. Caiu sem um gemido sequer, mas, já sem vida, sem
pulsação. Passaram-se poucas horas e os homens da aldeia por ali chegaram à procura do
menino. Em desespero tomaram seu corpo sem vida e levaram para a cidade, para que todo o
povo fizesse sua última despedida. Desde então não faço outra coisa senão pensar o que poderia
ter tido o poder de sua vida tirar...
- Mas Carvalho ancião, falaste ainda a pouco da maldade, mas só vejo, aí, decepção.
- Ocorre meu caro amigo que a macieira que ali se encontra agiu com intenção; ao amparar a
queda do moço desesperado, fincou-lhe no peito nu um galho bem apontado. Eu ouvi o
murmúrio do vento que segurou o rapaz: “Eu amparo sua queda e tu o acolhes no ar; faça-o
descer lentamente e iremos esta vida salvar”. A macieira prontamente atendeu, e no entanto...
- Mas, então ocorreu um acidente durante o salvamento! Não se poderá dizer que em meio à
tentativa, houve um mau sentimento.
O Carvalho silenciou um instante e então murmurou:
- Sabe, tanto tempo de vida me trouxe rico tesouro: galhos forte, tronco largo, protejo animais e
plantas – todo ser vivente – mas acima de tudo, sei ler o olhar de todos, até daquele que mente.
- Entendo, meu caro, entendo tua tristeza. Mas tu sabes que não tolero ato mau, mentira e
insolência. Eu trago as boas novas da estação, trago vida, a esperança da renovação. Mas
quando vejo o erro, o egoísmo e o desrespeito – não nego minha natureza – Sou VENTO, e levo
tudo ao chão!
Com estas palavras, desceu até a macieira que, vaidosa, exibia naquela época seus lindos
frutos dourados.
- Olá amiga árvore, que novas me trazem você?
- Eu é que pergunto: Que bons ventos o trazem? – E sorriu.
- Sim, sim, estou trazendo a nova estação.
- E me deixarás despida em breve...
- É a minha parte na Criação!
Os dois se riem do gracejo.
- Então, bela árvore, testemunhaste a morte dum menino aos teus pés?
- Sim, fato triste e estranho! Nunca imaginei infelicidade que fosse deste tamanho! Ouvi o que
contou o Carvalho – e o disse com muita certeza: era um rapaz alegre, belo e trabalhador – não
se podia imaginar que carregasse tamanha tristeza...
- Então, estava ele triste?
- Não foi o que o Carvalho disse?
- Bem, mas há algo que não entendo... Tanta alegria num dia, para tristemente morrer? Não teria
ele dito algo que nos ajudasse a crer?
- Ajudaria se eu dissesse que era um tolo sonhador? Volúvel e despreocupado, irresponsável no
amor? Acompanho sua vida desde o primeiro vagido; subiu em meus galhos centenas de vezes
enquanto era um menino – por toda vida o alimentei com meus frutos dourados – mas
ultimamente andava por aí sem rumo, desarvorado – dizendo-se amando, dizendo-se
apaixonado...
- Ora, então ele estava enamorado?
- É o que dizia... mas o que pode saber do amor um ser tão jovem? Sabemos todos que o amor
não foi dado conhecer ao Homem!
- O que dizes, minha amiga? Então o moço mentia?
- Creio que sim. Passou uma vida toda a brincar nos meus galhos, correndo à minha volta,
comendo maçãs aos meus pés, levando meus frutos embora...
- E então...
- De um momento para o outro, desapareceu. Preocupei-me deveras. Pensei que estaria doente,
talvez uma febre severa... Mas, eis que um dia desses aparece de repente: Foi exatamente na
manhã que antecedeu ao acidente. Aproximou-se de mim, tal gato sorrateiro, sentou-se à minha
sombra como outrora fazia e disse com ar zombeteiro: “Querida árvore, árvore amiga, dos
frutos que adoçam a boca, da sombra que nos descansa do sol... Venho confessar a ti algo que
só tu saberás: Há na aldeia moça tão bela que a tudo faz parecer iluminado; seu sorriso encanta
mais que o mais belo gorjeio de pássaros, seu olhar brilha como se guardasse mil estrelas nos
olhos –estou apaixonado. Guarda ti o meu segredo, embora eu pense que agora todos tenham
percebido, pois frente a maior dificuldade, ainda conservo o sorriso... ”!
-Então, o moço confiou a ti um segredo? E o que mais ele contou que possa explicar tal
desfecho?
- Ora. Nada mais. Levantou-se, tomou-me algumas frutas e se foi.
- Apenas isso? Nem mais uma palavra? Nem na manhã fatídica?
- Nada mais.
O vento rodeou a árvore por um instante. Sentia que havia algo que não revelava.
- Ora, mas o que é isso? Há uma folha de papel na sua folhagem, cara amiga.
- Oh?! Será um bilhete de despedida? Será um recado para mim? Vamos, abra logo e leia...
- Eu não sei ler, amiga. Não há paradas em minha viagem e atravesso todas as nações... mas sei
quem poderá fazê-lo...
- Amigo Carvalho, onde está Mestra Coruja? Acho que temos aqui a solução do caso; em meio
às folhas da macieira encontrei um pequeno recado!
- Espere um minuto, vou já acordá-la.
E tremeu seus galhos mais altos, acordando a velha coruja que ali habitava.
- Olá, olá, porque me acordam a estas horas do dia?
- Desculpe, cara senhora, precisamos do seu socorro: temos um pequeno papel com as poucas
letras de um moço!
- Ah, deixe-me ver... Hum, hum, (pigarreou) “Meu caro pretendente, enamorado sonhador –
Disseste-me em uma canção, à noite, sob minha janela, que por mim tens amor em sua forma
mais singela e que em breve me daria a prova de tal carinho – pois mandaria o sol, as estrelas
em um cestinho! E realmente recebi pela manhã, em meio a flores estreladas, um belo fruto
dourado como o sol como seu bilhete atado: Por ti o meu amor floresce a cada manhã- ilumina
como o sol, brilha como as estrelas – ao provar este fruto poderás então entender que o que
sinto não tem apenas beleza, mas também o doce profundo e verdadeiro do fruto da macieira.
Ah, rapaz, se teus sentimentos são como este fruto, peço-te que me esqueças, então, pois nunca
vi tal ignomínia e maldade partindo de um só coração. Esqueça-me e abandone qualquer
sentimento por mim – desejo apenas que o tempo apague as lembranças que ainda guardo de ti.
- Ora, ora! – Exclamou a coruja – o que vejo aqui? Parece-me que o amor foi renegado! Este é o
bilhete de uma moça!
O Carvalho e o Vento se entreolharam e perguntaram:
- O que será que aconteceu a ela?
- O que fez o apaixonado?
Todos se viraram para olhar de onde vinha tal pergunta.
- Talvez o moço tenha levado um fruto estragado – e a macieira pôs-se a rir.
- Como podes fazer isso a um ser apaixonado? Agiste com maldade, com ciúme e despeito!
- Foi o namorado! Ora, nada fiz. Foi ele que escolheu o fruto errado!
- Tu, nada fizeste?
- Bem... –Ela sorriu de lado – achei que já era hora de dar uma basta ao abusado. Tomar minhas
frutas para si, eu aceito, mas para presentear o ser amado...
- Amargaste a fruta!
- Sim, fiz. Mas só um pouco. Queria saber se era amor verdadeiro. Viste? Não era.
- Fostes cruel e insana! Como podes querer interferir assim no caminho dos homens?
- Ora, o fruto é meu! Fiz e acabou-se. Nada há para se lamentar.
- Não te sentes arrependida?
- Nem um pouco. Não tolero a traição. Era a mim que ele devia carinho e atenção. Eu que
acompanhei sua vida inteira, o alimentei e aninhei. Agora, por uma humana qualquer, abandona
meu regaço e ainda toma os meus frutos?
- JÁ OUVI O BASTANTE.
Fez-se ouvir uma voz que não era humana nem canto de pássaro, semelhante ao
murmúrio das águas, era doce como as manhãs da primavera, porém, poderosa como uma
tempestade de verão.
Todos se calaram ao mesmo tempo: animais, flores e árvores, pássaros em pleno vôo
pousaram nos galhos em silêncio – até as águas do regato se abrandaram e corriam
mansamente.
Então o Carvalho falou:
- Salve, Mestre da Vida. É uma honra ouvir Tua Voz, pois sabemos que estás entre nós a todo
momento nos observando em silêncio.
- Sim, filho Meu. Tens razão. Saúdo a todos nesta manhã. – E continuou: - Filha Minha,
orgulho de Minha Criação... o que fizeste? Tiveste a chance de salvar a vida do rapaz e, no entanto...
- Ó Mestre – a árvore enrubesceu – sinto muito. O rapaz atirou-se de forma inconsequente e o
Vento Norte lançou seu corpo em minha copa sem avisar-me, nada pude fazer...
-Foste chamada em auxílio do rapaz, Eu sei.
- Bem, mas, foi tudo tão rápido, não pude amparar sua queda, ademais, Mestre, a ninguém foi
dado dispor de sua própria vida, de modo que quando o vi lançar-se no espaço...
-E a ti, foi dado julgar?
- Como, Senhor?
-A ti, foi dado julgar se ele merecia ou não viver?
- Bem, não.
- Quando o rapaz se lançou no espaço, o Vento Norte já estava à espera para levá-lo aos seus braços. Alí, o Vento aguardava, atendendo ao Meu chamado. Pois vos digo agora, o rapaz passou a noite em agonia sem entender o motivo de seu amor ser desprezado – passou a noite em prantos, com o bilhete em seu peito apertado. Seus pensamento percorriam todo caminho possível para dar cabo à sua vida – Sim, ele errou – não poderia fazê-lo – mas o perdoei, então, pois estava em desespero. Quando já amanhecia, perturbado e cansado, encaminhou-se para a morte no alto do penhasco. A muito custo inspirei-o a desistir de tal feito, vindo ter à ponte para realizar seu intento. Agora veja, cara filha, onde se confrontam os fatos, pois era tu a causadora do erro e a ti foi permitido resgatá-lo. Trazendo-o até sua árvore amiga, acreditei que as lembranças dos momentos felizes o fariam desistir de acabar com sua vida. E ainda que tal não ocorresse, ainda assim, se se lançasse à morte, poderíamos salvar sua vida, Eu, tu e o Vento do Norte. Vós todos sabem que não interfiro em qualquer escolha, mas faz parte do Meu
papel entregar a segunda chance, para o menino e para ti, minha pequena.
A árvore baixou o olhar envergonhada.
- Como eu poderia imaginar? Estava cega de ciúme. Uma vida toda dedicada a ele e então, o
abandono por outro alguém? E quanto a mim, ninguém se importa, não é? Ficaria abandonada à
minha própria sorte...
- Confundes teus sentimentos, minha cara, com os sentimentos humanos? Perdeste o senso? Tu sabes que esta expressão de amor é coisa dos homens – Para vós outros Eu dei o sentido
verdadeiro e sei que compreendes: a eternidade. Ao que eles chamam de amor, poderiam
chamar posse sem perda do significado. Mas, tu? Queres possuir um humano só para ti ou
queres que ele seja teu proprietário? Acredito que perdeste em algum tempo o sentimento de perenidade que há em toda a Minha Obra e que um dia, daqui a muito tempo, será igualmente compreendido pelo homem.
A partir de hoje, teu ato de maldade marcará para sempre teus frutos – Serão tingidos do
rubro sangue do rapaz, e do teu ódio, carregarão o gosto amargo. Sim, perderão o dourado do sol e o sabor adocicado, pois não é feitio de Minha Obra deixar a quem quer que seja imune da resposta de todos os seus atos.
Então o mestre silenciou e toda a floresta, lentamente, retornou aos seus afazeres.
Apenas restaram estáticos; o Carvalho, o Vento Sul e a Coruja, profundamente tocados pelo
triste fado da ciumenta árvore.
O Vento foi até a macieira procurando consolá-la: - Cara amiga, veja bem, tente aceitar
o teu destino, não te entristeças desta forma, vamos superar o desatino.
- Falas por ti e não por mim, estás em eterno movimento, podes procurar distração a qualquer
momento. Quanto a mim, sou uma desgraçada, terminarei meus dias sozinha, pois quando
provarem dos meus frutos o terrível gosto amargo, me abandonarão qual erva daninha.
... Passaram-se sete dias, então – a árvore se lamentava noite e dia.
Ao oitavo dia veio ter à sua sombra uma formosa menina, que chorando, lamentava a
sua sina.
- Amei a um pobre rapaz que hoje não está entre nós; sob esta terra seu corpo jaz. Se me
amava realmente, jamais poderei saber, me trouxe fruto amargo, pensei que ironizava o amor;
atirou-se, então desta ponte sem explicação – levou o segredo. Se isto é que é o amor, já não o
quero, tenho medo.
A triste árvore ouviu a tudo e arrependida, lançou aos seus pés um fruto maduro.
A moça assustada tomou a fruta do chão – olhou-a com curiosidade – parecia um
coração! Sem suspeitar de nada, sentindo seu aroma, experimentou-a com cuidado e a surpresa
calou-a. Era doce como o mel, macia e saborosa, lembrou vagamente o sabor da fruta que
recebera na manhã anterior ao infortúnio.
- Será que era este o fruto prometido pelo meu amado? Talvez em meio à pressa ele tenha se
enganado! Fui tola e imprudente! Antes de negar seu amor, deveria ter aceitado o presente.
E assim, foi embora, levando o fruto nas mãos.
- Ouviste, filha Minha? Eis aí o seu perdão. Presenteaste a moça com um fruto de raro sabor, saibas agora, e para sempre, é disso que é feito o Amor. Doravante teus frutos outrora dourados levarão a marca do teu gesto tresloucado – a cor rubra do sangue do jovem apaixonado – mas a polpa será tenra e doce, como o amor perdoado, porém, para que disto não te esqueças, carregará para sempre na casca, do ciúme um toque de gosto amargo.

Inês Amazilis Choueri
19 e 20/04/2004