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domingo, 7 de novembro de 2010

A dançarina do véu vermelho



A dançarina do véu vermelho

Queria contar para a mãe. Explicar alguma coisa, para que ela não se sentisse culpada, como fazia sempre. Foi então que teve a idéia de comprar um véu vermelho. Sim, um véu vermelho explicaria tudo, ela pensava. E correu para o mercado. No mercado, uma nova revelação se fez ante seus olhos: então era por isso que sua mãe proibia sua ida ao mercado! Sequer podia mencionar a palavra, nenhuma tentativa de passar por perto era permitida – estava atônita com a quantidade de cores, brilhos, nuances que se misturavam como se flutuassem por sua própria vontade; cheiros, sons de vozes, animais, instrumentos e música, muita música! Ah, era quase desesperador, não sabia para onde olhava primeiro, tonta e feliz... Distraída, quase foi atropelada por um halwai com um tabuleiro na cabeça, cheio de golgappas. Num canto, uma mulher muito velha vendia samosas num tabuleiro enorme, o cheiro acre e quente do ghee passando por ela levou-a a infância, correndo pelos corredores até a casa da tia-avó, que cozinhava aos domingos para as crianças e homens da família... Abriu os olhos e deparou-se com uma dança sinuosa de tecidos leves e transparentes à sua frente – Cintilantes, coloridos, diáfanos, agora compreendia sua sensação: tal beleza só podia mesmo levá-la à dança de Kali, como sua mãe sempre dizia – Minha Neeraja não usa véus vermelhos. Quando casar, você ganhará o seu véu vermelho, então, minha filha morrerá e nascerá a esposa de teu marido.
Agora, lentamente, as coisas faziam sentido.

Harshad George, filho do engenheiro inglês, a seduzira desde o primeiro dia em que se encontraram, por acaso, na obra em que seu pai trabalhava. Seu pai carregava tijolos. O engenheiro dizia onde colocá-los. Harshad a olhava do alto do escritório, enquanto ela trazia a marmita com a comida e o chai para o pai, durante o trabalho.
Sabia que ele a olhava. E deixava-o perceber que ela sabia de seus olhares.
Numa tarde quente, depois de semanas daquela comunicação silenciosa, ela desceu sorrateiramente as escadas do pequenino apartamento. Um sábado ensolarado – seu pai estava compenetrado na leitura de um jornal de esportes e sua mãe dormia no quarto com as janelas escancaradas para espantar o calor.
Esgueirou-se pela viela rapidamente, foi parar na praça central sem ser vista pelos vizinhos. Estava aliviada, as velhas vizinhas certamente a mandariam de volta pra casa.
Correu pela avenida principal sem olhar para trás – agora, não podia mais voltar, estava a algumas centenas de metros de sua casa, na direção dos olhos azuis de Harshad.
A lembrança da mãe e das tias gritando com ela e surrando-a com uma vara de bambu deu-lhe mais energia para correr – Não pode ir à praça! Não vá ao mercado! Não saia de casa sem seu primo...
Mas, ela não ia até a obra, muitas vezes sozinha, para levar a droga da marmita? Isso podia? Pois foi na obra que tudo começou!


  • O que a menina quer? Pulseiras? Veja aqui, são baratas e brilham como o sol!
  • Ai, que susto, moço!
  • Desculpe, a menina estava pensativa...
  • Estou olhando, obrigada... Saiu da porta da loja e afastou-se para olhar os lenços. Azuis, verdes, dourados, laranja e amarelo, bordados e com pérolas... Era estonteante.

    Chegou ao porto. Olhou atentamente para o barco branco com uma faixa vermelha e um nome em Inglês que não compreendia. Parou assustada. - E agora? Sentiu dois braços enlaçando-a pela cintura e congelou, apavorada. Agora, como fugir?
  • Você veio... Ouviu um sussurro no ouvido e suas pernas amoleceram. Sentia que perdia a firmeza, como se fosse desmaiar. Tentou fugir do abraço, mas não tinha forças.
  • Eu... Eu... Não posso... Ficar.
  • Mas, você veio! Ele apertou-a mais contra o corpo e ela sentiu as faces em brasa.
  • Não, eu não posso! Ela empurrou-o pra longe de si, mas as pernas falharam e ela caiu no chão, tonta.
  • Nee, cuidado! Ele agarrou suas mãos e num gesto, levantou-a e abraçou-a ternamente.

    Tinha os olhos fechados, as mãos cruzadas sobre os seios para proteger-se. Ele beijou-a com delicadeza.
  • Onde estamos?
  • Estamos sozinhos, fique tranquila, ninguém vai entrar no barco. Meu pai viajou.
    Ia gritar, mas desistiu. Ninguém ouviria. E nem queria mesmo que alguém ouvisse. Pensou rapidamente em seu destino – se alguém aparecesse estaria condenada de qualquer forma. Entregou-se.
    Olhava os lenços levitando sobre sua cabeça. Os sons do mercado pareciam longínquos e a sensação do calor do corpo sobre ela permanecia ainda, como se tudo estivesse acontecendo naquele instante. Fechou os olhos para lembrar-se do rosto dele, mas a imagem fugia. A dança ainda estava em seu corpo, vibrando e fazendo-a transpirar. Sua respiração foi ficando cada vez mais ofegante e novamente, a tontura derrubou-a.
  • Moça, tudo bem?
  • Ah, sim, sim, estou cansada... É o calor... Explicava-se para as pessoas que a levantavam do chão.
  • Vá pra casa, logo vai anoitecer.
  • Sim, obrigada.
    Riu de si mesma, do rubor que sentia nas faces. Do calor que sentia entre as pernas, da dor estranha e prazerosa que trazia consigo.

    Abriu os olhos e viu os olhos azuis fitando-a enquanto dizia coisas bonitas numa língua desconhecida. Sorriu para o rapaz – Fale na minha língua, não estou entendendo!
  • Você é a menina mais linda que já vi!
  • Ah, acho que você está mentindo! Só quer me agradar.
  • Não, estou falando a verdade. E beijou-a demoradamente, foi descendo para seu pescoço, colo... Ela segurou seu rosto.
  • O que você está fazendo?
    Mas ele não respondeu. Abriu delicadamente os botões da blusa e beijou seus seios. Ela estava estática e para não demonstrar a vergonha que sentia, cobriu o rosto com as mãos. Seu coração batia rápido, sentia vertigens. - Ah, e agora? Pensou. Vou desmaiar! O que faço pra ele parar?
    • Como solta a sua saia?
    • Hã? Eu não sei!
    • Você não sabe? Ele sorriu pra ela, sem acreditar. Tirou a camisa de seda branca e jogou aos pés da cama. Pegou a mão dela, beijou seus dedos e trouxe até seu peito.
    • Sente? É meu coração.
    • Nossa! Como bate forte!
      Ele deslizou a mão dela suavemente por seu peito até a cintura e puxou-a para si, colando seus corpos nus. Abraçado a ela, desamarrou a faixa da cintura e soltou o sári verde-água com desenhos prateados. Ela sentiu o tecido fino escorregando pelas pernas rapidamente e percebeu-se completamente nua. Queria gritar, mas ele a beijava com sofreguidão, enquanto passava a mão direita por suas costas, sua nuca, e agarrava sua coxa, obrigando-a a abrir as pernas. Assustou-se e empurrou-o com força, colocando um travesseiro entre eles. Mordeu o travesseiro com força para abafar o grito. O rapaz tirou o travesseiro das mãos dela e olhou para o corpo encolhido e arrepiado. Puxou-a delicadamente para si e abraçou-a.
  • Não tenha medo de mim, não vou te machucar.

    Neeraja compreendeu o significado da dança de Kali, envolta em fogo. E compreendeu porque sua mãe não queria que ela fosse ao mercado, e que usasse o sari vermelho.
    Seu corpo estava entregue à vida, ao prazer, aos olhos azuis do menino inglês, à Kali, com sua espada flamejante que matava e trazia de volta à vida.
    Em sua cabeça, sua mãe gritava e vociferava contra os impulsos da carne, dos jovens estrangeiros que levavam as meninas de família à perdição, contra as danças de sáris vermelhos cheios de pecados e luxúria. Neeraja sentia sua carne tremer, doer de prazer enquanto rodeava o corpo de carne branca com suas pernas morenas. Dançavam juntos, agora, e as cores brilhavam e vibravam em sua mente, afastando a mãe que gritava e chorava. As cores fugiam, voltavam, giravam numa dança frenética, ouro, prata, contas coloridas e cintilantes bailavam ao som de um furacão enlouquecido, ela gemia e sussurrava palavras entrecortadas com a respiração ofegante, a dança era cada vez mais rápida, os olhos azuis semicerrados, a boca vermelha colada na sua, o beijo infinito, as cores velozes, os sons ensurdecedores das cítaras de mil dançarinos em sua cabeça, cantando, dançando, e Kali, entre eles, ria seu riso macabro e lascivo, era vida e morte, era o prazer da vida e a dor da carne, a canção dos Deuses era estridente e ela cantava em sua alma com cada um deles.
    Gritou de dor e cravou suas unhas na pele branca, quando os corpos tremeram numa convulsão, unidos até a alma. Seu grito ecoou e ela acreditou que todo o oceano testemunhara aquela transformação de seu corpo em luz – os olhos fechados viam as estrelas transformarem-se em fogos aos pés de Kali, que dançava freneticamente em seu ventre, correndo por sua coluna, descendo por suas pernas até tremer em seus pés.
    Soltou-se como quem desmaia e só então sentiu o peso do corpo relaxado sobre o seu. Kali ainda dançava dentro de seu corpo, ria em seus ouvidos, cantava a canção da morte.

    Neeraja olhava os sáris que agora já não flutuavam suavemente, mas ricocheteavam com violência contra as paredes. Pessoas corriam para segurar tecidos que voavam na ventania, sem compreender a súbita mudança do tempo. Ela olhou para cima e viu o céu azul ir cobrindo-se de negro. Um vendaval anunciava tempestade e ela teria que correr.
    - Senhor, senhor... Quanto é o véu vermelho?
    - Qual, mocinha?
    - Aquele, aquele. – Apontava um véu rubro, com desenhos dourados como chamas em toda a volta.
    - Ah, esse é caro. Não quer um mais barato? Veja este... – E mostrou um tecido rosado, com pequenos bordados verdes.
    - Não! Eu quero aquele. – Disse, resolvida a levar a peça desejada. Dizendo isso, tirou todas as pulseiras dos braços e entregou para o comerciante.
    - Está bem.

    Correu até a beira do rio com o véu sobre a cabeça e parou para olhar o pôr-do-sol de cores fortes. Viu sua mãe do outro lado da praça, vindo em sua direção. Não haveria tempo de explicar. Se voltasse para casa, encontraria Kali ou mentiria. Não havia escolha.
    Sorriu ao pensar em Kali.
    - Agora eu entendi, Kali, porque minha mãe disse que eu só teria um véu vermelho quando morresse. Agora entendi porque você dança a vida e a morte. Eu queria contar pra minha mãe, mas ela não vai compreender. Mas eu entendi. Diga a ela que eu não poderia voltar, pois A conheço e Você me conhece. Agora você dança dentro de mim.
    Olhou novamente para trás. Sua mãe vinha em sua direção e parecia furiosa.
    Amarrou o anel antigo na ponta do véu vermelho. A ventania levantava o véu acima de sua cabeça. Olhou para o rio. Soltou o véu. Saltou.


    Chai - Chá
    Ghee – Manteiga clarificada, usada para cozinhar.
    Golgappas – Guloseima popular, comprada em barracas de doces.
    Halwai – Fabricante e vendedor de doces e guloseimas
    Samosas – Espécie de pastel hindu, recheado de vegetais condimentados e frito em ghee.
  • imagem de Kali :/veerakali.blogspot.com/

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Número um.

Um conto para o começo. Melhor que isso: Um começo para um conto...

... "Abrandava sua ira com pequeninas maldades. Aqui, ali... Sem chamar a atenção de ninguém.
Apenas o gosto de sentir uma única pessoa sofrer. Uma lágrima amarga e silenciosa em meio ao rir dos demais. Um susto. Um trauma pra toda vida.
Sabia encontrar, em cada pessoa, aquilo que a faria sofrer mais do que tudo. Guardava a informação para o dia.
Sem chamar a atenção. Até com gestos compassivos e palavras de compaixão.
Então, exibia sem sutileza a fragilidade, a falha alheia.
Contou pra uma pequena que seu pai não morrera. Havia ido embora porque não queria uma filha.
A menina fazia cinco anos.
- Desculpe, achei que ela já sabia..."