Nós devoramos a beleza. Não queremos que ela se vá, que nos deixe assim, órfãos num mundo de tão pouca beleza e tanta mesquinharia.
Queremos a beleza, nem que seja em nossa boca, entre nossos dentes, descendo pelo esôfago e atingindo nosso estômago. Nós queremos digerir a beleza, para que ela faça parte de nossas células.
Acostumamos-nos ao mal. Ao feio. À negação do belo como forma de viver. Como se a beleza fosse uma espécie de gasto fútil de nossas (ou do Universo) energias. Então vivemos mal, nos comportamos mal. Fazemos o mal. E fazemos mal as pequenas coisas da vida.
Será tão difícil perceber que o mundo precisa da beleza? Que ele se move por ela e a partir dela? Exemplos banais: As flores atraindo borboletas, os pássaros exibindo beleza para atrair fêmeas, uma escultura natural que nos obriga a preservar todo um sistema.
E nós, com pensamentos de uma mesquinhez bruta, economizamos beleza. Fazemos tudo “mais ou menos”, discretinho e cinzento. Pra não gastar purpurina.
Não fosse a beleza, seríamos como máquinas frias, apenas calculando a melhor trajetória para a vida. Economizando combustível e tempo... Nada de apaixonar-se perdidamente por um ilustre desconhecido que será a pessoa mais importante que já cruzou o seu caminho, ou de apaixonar-se por uma canção (haveriam canções?), por um céu estrelado, ou extasiar-se eternamente pelo efêmero instante do amanhecer. É aniversário de uma criança que você ama, e você contabiliza dias e meses ou comemora mais um ciclo de descobertas e renascimento?
Mas ainda que a beleza cause uma irresistível atração sobre nós, insistimos em achar que o normal é cercarmo-nos da feiúra. Nos atos e nos rostos. E quando encontramos com o brilho, a luz e a beleza, corremos dela. Ou destruímos a fonte. Ou devoramos rapidamente, sem pensar. Será que é porque não nos achamos merecedores? Não acreditamos que esta beleza que está em tudo seja acessível? Será que alguém nos convenceu que nosso destino é sermos medíocres reprodutores de imagens insossas em nossas próprias vidas?
Seria esse o motivo de nossa fascinação quando vemos alguém criando a beleza na vida? Em sua própria vida, quando percebemos que é feliz, e na vida dos outros... E chamamos este alguém de... Artista?
O artista é alguém que percebeu que a beleza não deve perecer, mas permanecer. Aquele que esculpe, pinta ou faz da beleza ferramenta da efêmera arte da encenação teatral, traz a beleza do espaço etéreo da criação para a concretude da vida corpórea, que também chamamos de “real”. Como se o mundo dos pensamentos, onde tudo cabe, não fosse tão real...
Ser belo, nesse mundo, dessa forma, passa a ser uma temeridade. A mesma beleza que torna a vida mais leve e mais prazerosa, pode ser a causa da morte e destruição daquele que a carrega.
Assim como pássaros exóticos são aprisionados e vendidos pela beleza de suas plumagens, fazemos com a beleza de outrem. Caçamos. Aprisionamos. Escondemos da luz, onde possam vê-la e desfrutá-la. A história do mundo poderia ser contada a partir da luta do horror contra a beleza. E ela sempre surge, ainda que massacrada, perseguida e constrangida. Surge e brilha, como raios de sol que invadem o dia cinza e macilento.
Há uma lição a aprendermos com a beleza: a lição da liberdade. A beleza aprisionada é apenas uma relíquia. Tal como uma nota antiga, perderá seu valor e sua vocação – que é a de nos levar além. Além dessa pequenez das mentes estreitas, que acreditam na fealdade como condição de origem do ser.
Não, o ser é belo. Sempre haverá como ser belo.
A beleza concreta é ponte entre o aqui-agora e a transcendência que trazemos na alma. Quando vemos algo realmente belo e nos apropriamos da beleza que ele emana, sentimo-nos parte dela, irmãos de carne e espírito. A beleza nos eleva acima do lugar comum, do todo-dia mecânico em que vivemos, para alcançarmos as estrelas. É obrigação nossa libertarmo-nos da crença dessa vida limitada pela finitude da carne, e lembrar que somos infinitos.
E a beleza, dos atributos do mundo concreto, é a ponte para o infinito.
excelente
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